Niterói: mulheres já ocupam 50% dos cargos de liderança na IONLeonardo Simplício
Publicado 18/03/2026 01:24
Niterói - O cenário de capacetes, botas e plantas de engenharia nos canteiros de obras de Niterói apresenta um perfil diferenciado. Quem percorre as intervenções urbanas mais importantes da cidade hoje encontra, na linha de frente, vozes femininas que falam mais alto e ditam o ritmo da produção. Se historicamente a construção civil é um reduto masculino, em Niterói, essa realidade vem sendo reescrita por profissionais que lideram desde a infraestrutura básica até projetos de tecnologia sustentável.
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A situação também acontece na gestão administrativa. Na Empresa de Infraestrutura e Obras de Niterói (ION), as mulheres já ocupam 50% dos cargos de liderança nas diretorias diretamente responsáveis pelas obras e também atuam em funções de fiscalização de projetos que estão entre os mais importantes da cidade.
Visando garantir as melhores condições de trabalho, especialmente para as mulheres, a ION também vem promovendo palestras educativas para colaboradores e aperfeiçoou seus mecanismos de denúncia. No caso de qualquer manifestação recebida, o caso é devidamente encaminhado pela equipe do Trabalho Técnico Social (TTS) e investigado pelos conselhos responsáveis, com sigilo garantido.
O incentivo à liderança feminina se reflete nas empresas contratadas para executar as obras sob responsabilidade da ION. No Engenho do Mato, onde é executado o maior projeto de urbanização da história da Região Oceânica, a engenheira Heloise Motta exerce sua liderança aliando rigor técnico à formação de novas gerações. Ao comandar frentes de trabalho pesadas, ela supervisiona duas estagiárias, focando não apenas na execução do projeto, mas na postura necessária para gerir um ambiente tradicionalmente masculino.
"Hoje eu trabalho com duas estagiárias e jovens aprendizes. Tento passar para elas que conseguimos ganhar o respeito com a nossa postura e o nosso conhecimento. É preciso saber desviar de certos comportamentos, porque existe uma linha muito tênue entre ser simpática e perder o respeito. Converso muito com elas para que mantenham esse limite", explica Heloise.
Uma das jovens que absorve esse aprendizado é Thayná Araújo. Estudante de Engenharia Civil, ela traz de casa a familiaridade com o canteiro, mas é na prática da obra pública que transforma a curiosidade da infância em domínio técnico.
"Escolhi engenharia porque meu pai e meus tios são pedreiros. Desde nova, os via comentando sobre o trabalho e ficava curiosa. Escolhi essa área por curiosidade, e hoje, com a experiência que tenho no estágio, posso conversar com eles, tirar dúvidas ou até ensinar", orgulha-se a estudante.
No Centro, a obra do Parque Olímpico da Concha Acústica também é liderada por uma mulher. A arquiteta Yara Colombini coordena a execução técnica do projeto, que concilia infraestrutura esportiva, normas olímpicas e diretrizes urbanísticas de Niterói.
"Na área da arquitetura e, principalmente, na construção civil de grandes obras, a mulher enfrenta dificuldades. Temos que chegar impondo respeito e profissionalismo para que, em um meio tão masculino, sejamos ouvidas", pontua a arquiteta.
As obras do Parque Solar do Boa Vista, marco da tecnologia renovável no município, são coordenadas por Vanessa Rodrigues. Engenheira ambiental por formação, ela supervisiona as equipes técnicas unindo o olhar sustentável à prática direta do canteiro — uma transição que começou no estágio e se consolidou como trajetória de carreira.
"Sou formada em engenharia ambiental e vim parar na engenharia civil em um dos meus estágios. Continuei na empresa e, a partir daí, passei a acompanhar as obras. Como mulher, cumpro todas as obrigações com competência e um toque a mais de sensibilidade", relata Vanessa.
O protagonismo feminino observado em Niterói reflete uma mudança estrutural no país. Dados recentes do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) apontam um crescimento de 36% nos registros de mulheres no setor nos últimos cinco anos.
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