Publicado 08/05/2026 11:54
Niterói - O ex-deputado Marcelo Freixo lotou o auditório da UFF, nesta quinta-feira, para o lançamento do livro Viver é Perigoso – Minha Travessia no Rio, uma biografia que percorre sua trajetória pessoal e política e oferece um retrato contundente do Rio de Janeiro nas últimas décadas. Nascido em São Gonçalo, Marcelo Freixo foi criado no Fonseca, onde morou dos 3 aos 40 anos, formou-se em História na UFF nos anos 90, e se emocionou ao lembrar os tempos de universidade.
Publicidade"É uma alegria estar em Niterói, onde morei até os 40 anos e minha mãe mora até hoje, e na UFF, que mudou a minha vida. Quando entrei aqui, na Faculdade de História, em 1989, era um jovem cheio de sonhos, de uma família muito humilde do Fonseca. A gente não tinha muito acesso a livros, não ia a cinema, teatro porque não fazia parte da nossa realidade. Posso dizer, não como professor que sou, mas como aluno, que a UFF é transformadora", emocionou-se, para uma plateia de cerca de 200 pessoas.
Ao lado do reitor Antonio Claudio Nóbrega e da deputada Verônica Lima, Freixo apresentou o livro que faz um mergulho profundo na história recente do Rio de Janeiro, expondo as raízes e a expansão do crime organizado nas estruturas de poder do estado. O ator Wagner Moura assina o prefácio.
"Wagner é um amigo de muitos anos. Muito antes de eu virar deputado e dele ficar famoso. Nos conhecemos por acaso, no Habib's da Alameda, onde eu estava lanchando, ele parou para lanchar e veio me perguntar como fazia para chegar em Itacoatiara. Parece conversa fiada, mas é a mais pura verdade", contou Freixo.
Viver é Perigoso propõe uma reflexão sobre o futuro do Rio de Janeiro e do Brasil. Freixo revisita sua origem na periferia de Niterói, sua história na UFF, a atuação como professor e ativista de direitos humanos, e sua trajetória parlamentar marcada pelo enfrentamento a estruturas criminosas que operam na política e na economia do estado. O resultado é um relato pessoal que se entrelaça com a própria história contemporânea do Rio, uma cidade de contrastes, onde cultura, política e violência convivem em tensão permanente. Com o objetivo de desvendar a simbiose entre o crime, polícia e política, o livro expõe os bastidores das investigações que confrontaram autoridades e grupos paramilitares, demonstrando como a luta pela democracia e pela segurança pública no estado exige embates e riscos extremos de seus protagonistas.
O avanço das milícias e a resistência no parlamento
Desde seus tempos como professor de História e mediador de conflitos em motins no sistema penitenciário, Freixo narra como a violência estrutural se fortaleceu no Rio de Janeiro. Contudo, o grande destaque da obra recai sobre a sua atuação investigativa no parlamento, período em que liderou frentes decisivas contra as máfias que dominam territórios.
O autor relembra a tensão de ter presidido a histórica CPI das Milícias, cujos desdobramentos marcariam para sempre a sua carreira política e a sua própria vida. O livro relata como se estruturam os grupos criminosos, que visavam lucros milionários por meio de loteamentos ilegais e monopólio de serviços básicos, operando com a conivência de agentes que deveriam combatê-los.
A memória de Marielle Franco e os riscos da vida pública
Em passagens contundentes, Freixo resgata a memória de Marielle Franco, vereadora e ex-assessora de seu gabinete assassinada em março de 2018. Ao descrever a sensação de acompanhar o julgamento dos assassinos de Marielle, o autor expõe o choque de ouvir, perante o tribunal, que a sua própria execução havia sido a primeira encomenda feita pelos mandantes do crime aos pistoleiros.
Apoiando-se na célebre reflexão de João Guimarães Rosa de que "viver é muito perigoso", a autobiografia constrói uma narrativa de resiliência. "O perigo pode dar sentido à vida, não necessariamente ligada ao medo", escreve Freixo. Ele conclui que "o medo nos humaniza, mas não deve nos paralisar. Precisamos estar dispostos a escolher riscos para a vida ganhar direção".
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