Niterói: além das ações realizadas localmente, oficinas e apresentações levaram o grupo a mais de 15 cidades no paísDivulgação/Ascom
Publicado 07/10/2026 08:10
Foi com as mãos do batuqueiro, do luthier e do artesão que a Companhia Mãos Calejadas construiu sua trajetória. A história começou em 2004, em São Luís (MA), com oficinas de ritmo conduzidas pelo maranhense Cidel Trindade. Em 2005, após sua mudança para Niterói, a iniciativa ganhou nome e passou a atuar na cidade, valorizando a cultura popular brasileira.
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Com a coordenação de Cidel Trindade e de Cristina Cavallo, artista e doutora em Design, a Companhia pesquisa, ensina e compartilha saberes e fazeres de diferentes culturas e tradições. O trabalho reúne mais de 30 ritmos e manifestações, como tambor de crioula, bumba-meu-boi, cacuriá e jongo, com foco na memória, no fazer e na transmissão desses conhecimentos.
Para Cidel, a trajetória da Companhia também se mistura à sua própria história de vida. "Eu vim pro Rio de Janeiro por amor, por causa dela (minha companheira). E graças a Deus eu construí com ela uma vida muito feliz, no casamento, com filhos e netos, mas eu também desenvolvi aqui, com a Companhia Mãos Calejadas, tudo o que eu aprendi, tudo o que eu fazia lá no Maranhão, que é arte e cultura popular. Eu sou um batuqueiro, um fazedor de tambor e um artesão. E é isso o que eu faço, já faz 21 anos", afirmou Cidel.
Além das ações realizadas em Niterói, oficinas e apresentações levaram o grupo a mais de 15 cidades no país, entre Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Maranhão. Entre os muitos marcos dessa trajetória estão a criação da Orquestra Brasileira de Percussão Folclórica, em 2012, do Coletivo Cocairé, em 2017, do projeto Mulheres na Zabumba, em 2024, e a apresentação de jongo que abriu a fala da escritora Chimamanda Ngozi Adichie no Festival LED – Luz na Educação.
A Companhia também mantém um ateliê em São Gonçalo, onde já produziu mais de 500 instrumentos artesanais de percussão, além de figurinos, alegorias, móveis e peças criadas a partir de materiais reaproveitados. É nesse espaço que o casal produz seus artefatos e desenvolve suas pesquisas.
“Nesses 21 anos, foram também mais de 200 alunos formados. E, hoje, muitos deles são professores de música, músicos profissionais, vivem da cultura e da arte. Essa é a maior realização para um mestre”, conta Cidel.
Ao longo de sua atuação, o grupo estima ter alcançado cerca de 5 mil pessoas por meio de oficinas, apresentações, vivências e outras ações culturais.
O fruto mais recente da Companhia é o Boi das Águas Escondidas, grupo de bumba-meu-boi de sotaque Pindaré, da Baixada Maranhense, nascido em Niterói. Ele é resultado da Residência Artística e Formativa do Bumba-meu-boi, iniciada em maio no Centro de Artes UFF, com encerramento previsto em novembro. A formação reúne oficinas de percussão, dança, indumentária e adereços.
Em poucos meses de residência, os participantes, sob a regência do mestre Cidel e de Cristina, confeccionaram as fantasias, formaram o elenco, compuseram toadas autorais e realizaram os ensaios. Em 24 de julho, a manifestação foi batizada na Catedral de São João. Em 16 de setembro, o Boi das Águas abrilhantou a abertura da 15ª edição do Festival Interculturalidades, da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Centro de Artes, em Icaraí. A apresentação retomou uma relação iniciada em 2006, quando o grupo foi acolhido pela instituição, pouco depois de sua chegada a Niterói.
No espetáculo, de 40 minutos, o auto do bumba-meu-boi, manifestação reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, se entrelaça ao canto, à dança e à batucada de pandeirões, matracas e tambor-onça. Seus personagens, como índias, cazumbás, vaqueiros, Pai Francisco e Catirina, entre outros, bailam em torno do dono da brincadeira: o Boi.
“O Boi das Águas Escondidas nasceu de um sonho nosso e ganhou força a partir de muitas mãos, das pessoas que participaram da residência e deram vida a esse desejo junto com a gente. Agora, queremos uma casa à altura dessa história, um espaço onde as culturas populares possam ser ensinadas, criadas, ensaiadas e celebradas todos os dias”, diz Cristina Cavallo.
Uma casa para a cultura popular
A busca por uma sede própria traduz o momento de maturidade da Companhia, ao completar 21 anos de trajetória. Depois de tantas histórias construídas coletivamente, o desejo é reunir oficinas, vivências, residências, ateliê e apresentações em um mesmo lugar.
Mais do que ter um espaço físico, a proposta é criar um espaço permanente de valorização e resistência da cultura popular em Niterói, com encontros, formações e criação, fortalecendo os vínculos com o público e abrindo caminho para novas histórias.
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