Publicado 26/11/2023 00:03
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Há ventos por todo lado. Nada fica inerte. Os que se tentam agarrar erram. Há feridas e há cicatrizes. Há espaços de honrarias e há noites indormidas de incompreensões.
Quem compreende o tempo?
A grande árvore resiste às estações e assiste aos desajustados que imaginam algum poder. Imaginação infrutífera. Poderes caem como caem os frutos da árvore. E outros brotam. E caem depois. Há os que alimentam e há os que se desperdiçam. Nada é estático.
A velha rocha sabe. Uma sabedoria ensinadora aos humanos. Os humanos se perdem nos acotovelamentos. As rochas, não. Estão onde estão.
Os ventos ventam os humanos. Cada dia é um dia. Um dia morre. Um dia nasce. Os humanos não seguram os dias. Nem quando querem. Os quereres humanos têm seu barulho. Sua loucura. Sua inacreditável decisão de que decidem. Quem decide é o tempo. Sua excelência, o tempo.
Os que estão no alto caem. Os que estão caídos podem se levantar.
Os que se abraçam ao poder, que imaginam ter, não abraçam a ninguém, nem a si mesmos.
O tempo é generoso nas arrumações, nos alívios. Mas é implacável nos desfazimentos. O tal do poder que os humanos buscam, sem saber o que é, e o que com ele fazer, dói. Sobem neles, nos humanos, sentimentos menores de que mandam, de que podem, de que são mais do que são, de que os outros são menos do que são.
O tempo vê. Os olhos do tempo são incansáveis. Os sons do tempo, para os que compreendem a árvore e a rocha, tranquilizam. A dor faz parte da vida. Os frutos que alimentam aliviam a dor. Os humanos, alimentadores de humanos, doem menos. Os que se recusam apodrecem.
Incompreendem os humanos que os instantes de arrogância desfazem o bonito que o vento traz. O vento traz encontros, o vento traz paisagens que se seguem de outras paisagens movimentando a vida. A vida é feliz no tempo. As infelicidades estão nos apegos, nas ausências de lucidez. O tempo é luz que ilumina as árvores e as rochas para que os humanos vejam.
Os humanos que sobem nas rochas e imaginam a eternidade das alturas erram tanto como erram os que olham para a subida e imaginam não ser a subida o caminho para eles. Caminhantes são todos. Os que decidem não caminhar são levados por caminhos de outros. Parado, ninguém fica.

O tempo escreve nos corpos humanos avisos de despedidas. O ontem se foi. E, com ele, a sabedoria dos desapegos e do perdão. Do perdão, inclusive, a si mesmo. O amanhã ainda não veio. O tempo do hoje se desperdiça quando o amanhã chega antes nos medos do que nem se sabe. Os ansiosos humanos e seus sofrimentos.
Os humanos se cansam nos acotovelamentos, enquanto a rocha descansa o encantamento da natureza. Enquanto a árvore alimenta os voos que enfeitam a vida de sons surpreendentes. Os pássaros se sabem pássaros. Os humanos sabem nada; se soubessem, saberiam o tempo. O tempo arrumador de bagunças. O tempo ensinador de essencialidades.
Alimentar com frutos de amor é a essência dos humanos. É o florescer no tempo dos espaços do existir. É o plantio honesto que não estraga a terra. A terra, planeta casa dos humanos e das rochas e das árvores e dos pássaros, metáforas da liberdade.
Sua excelência, o tempo, ensina que a liberdade é o que têm os humanos para aprender o sorriso. O sorriso eterniza o tempo na memória de quem soube dar amor. Os que dão amor sabem desgarrar. Sabem o bonito do choro do adeus. Sabem agradecer as despedidas. Sabem permanecer na contemplação do tempo. Sabem nada os que pensam mandar. Quem manda é o tempo.
Há ventos por todo lado. O melhor é se deixar levar. É lavar as pretensões de poder e poder ser quem se é, filho de um tempo e de muitos espaços de alimentar.
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