Publicado 17/12/2023 00:04 | Atualizado 17/12/2023 00:08
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Eu havia acordado antes do dia dizer a luz. Estava cansado do dia anterior e do dia anterior ao dia anterior. Ando com esses cansaços acumulados. Ando colecionando decepções com a humanidade.
Sou professor e, então, insisto em desmentir os sentimentos que me fazem sentir tão descrente. Olho para os lados e vejo aridez. Terra seca. Terra impedidora de nascimentos de esperanças.
Uma antiga professora explicava o egoísmo como o mal do mundo. Eu, adolescente, anotava. Eu, adulto, vejo. Ver é um verbo que exige alguma decisão.
Dizia, antes das digressões sobre os cansaços, que havia acordado antes do dia dizer a luz. Era escuro, quando eu saí de casa e fui para o aeroporto. Sentei aguardando o voo. Sentei ao lado de um funcionário de uma das companhias áreas que, ali, não estava a trabalho.
Uma senhora se aproximou, Vera. Aproximou e olhou para o funcionário pedindo a informação sobre o seu voo. Disse a cidade e queria saber o número. Ele disse que bastava que olhasse no bilhete que estava em suas mãos. Ela disse que estava difícil de ver porque o bilhete estava amassado. Eu vi seu constrangimento. E olhei para o bilhete e falei o voo.
Ela prosseguiu querendo saber onde era o portão. O funcionário, educado, explicou que bastava ver no grande painel à frente. Ela disse que enxergava pouco assim de longe. Eu me levantei e falei que, como estava indo ao banheiro, poderia ajudar. Ela agradeceu. Eu vi o portão, indiquei, e ela se foi sorrindo, sem antes dizer que as letras deveriam ser maiores. Eu concordei e até disfarcei alguma dificuldade em ler o painel.
Voltei para o lugar em que estava, e o funcionário gentil brincou dizendo sobre eu não ter ido ao banheiro. Foi quando falei sobre atenção. E sobre o que se esconde nos esconderijos que nos envergonham.
Aquela mulher, Vera, não sabia ler. E não sabia dizer que não sabia. Por vergonha. Preferiu falar do amassado do bilhete, da distância do painel, das confusões de letras tão pequenas a se sentir pequena dizendo: "Eu não sei ler".
O funcionário maneou a cabeça, indignado com ele mesmo: "Nossa, é óbvio, como eu não percebi?"
Geralmente, não percebemos quando a dor que dói no outro. O outro, tão próximo e tão distante. Tão feito de barro como eu e tão de mim diferente.
Falamos das insensibilidades diante das guerras, diante dos milhões de refugiados, diante das fomes, das fomes tantas, diante das injustiças, tão desgraçadoras das felicidades. Falamos, apenas. Palavras que saem sem estarem entranhadas. Dizeres que dizem que sabemos do que dói o mundo. Sabemos nada. Soubéssemos, cuidaríamos, ao menos, dos mundos que se cruzam com os nossos.
A Vera, no dia amanhecendo, no dia dos cansaços, descansou minhas impotências. Ela saiu sorrindo por ter a informação que precisava, e eu fiquei sorrindo por ter conseguido vencer a desatenção e compreendido a importância, para o mundo e para mim, do verbo ver.
O sorriso que ficou foi fazendo filme em mim, esqueci das descrenças e fiquei vasculhando na memória alunos que eu vi crescerem por poder semear a terra, por poder abrir espaços para florescimentos.
Decidi, ao menos naquele dia, não reclamar. Não tenho o poder de cessar os egoísmos que geram os males, mas tenho o poder de sublinhar um substantivo feminino tão essencial para os dias dizerem luz, "atenção".
Enquanto entrava no avião, cantarolava uma música do Chico que meu pai tocava em seu violão, "E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água". A canção fala do amor romântico. O amor é um e é muitos. Mesmo os fugidios, mesmo os que chegam e se despedem em alguns instantes de cuidado com o outro.
Espero que Vera chegue bem ao seu destino. Quando sentei no meu lugar, olhei para o sol dizendo o calor. Um dia lindo de verão estava nascendo.
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