Publicado 07/08/2025 00:00
O Ministério Público Federal voltou à Justiça para obrigar a União a garantir o funcionamento do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos no Rio de Janeiro (PEPDDH/RJ). O edital para contratar nova entidade gestora fracassou: houve uma única proposta, considerada inviável. Mesmo assim, a União tentou convencer a Justiça de que havia cumprido sua obrigação. Enquanto isso, lideranças indígenas, quilombolas, ativistas e outros defensores seguem desamparados.
PublicidadeO Rio de Janeiro enfrenta uma das maiores crises de segurança para defensores de direitos humanos no país, com 165 denúncias formais de violações em 2024, segundo o ObservaDH. Cerca de 85 defensores estão sob proteção direta de uma equipe federal que mantém o programa funcionando de forma provisória desde o fim do convênio com o estado e do contrato com a antiga entidade gestora.
A crise, agravada desde 2023, não é um acidente: é consequência direta de escolhas políticas. A ausência de uma entidade gestora, a falta de orçamento estável e de uma equipe minimamente estruturada não são falhas pontuais. São sintomas de um modelo que normaliza o abandono de quem defende direitos.
O Brasil já deveria ter aprendido com sua própria história. O assassinato de Marielle Franco não foi exceção. Foi — e continua sendo — a face mais visível de uma realidade cotidiana, em que ativistas vivem sob ameaça, enquanto o Estado se recusa a protegê-los.
Outros países enfrentam contextos igualmente violentos, mas adotaram medidas mais eficazes. No México, o mecanismo de proteção inclui avaliação contínua de risco e participação da sociedade civil. Na Colômbia, a abordagem interseccional considera gênero, raça e contexto local. Embora não sejam livres de falhas, mostram ser possível avançar quando há vontade política, planejamento e investimento público.
E aqui, fingem que publicar um edital é sinônimo de política pública. Não é. E a tentativa da União de se eximir da responsabilidade após o fracasso desse edital escancara o descaso e formaliza a omissão.
O Supremo Tribunal Federal já deixou claro: quando o Estado se omite, colocando em risco direitos fundamentais, não só é possível, como é necessário, intervenção do Judiciário. Isso não significa romper a separação entre os poderes. Significa, simplesmente, fazer valer a Constituição.
Há sempre verba e velocidade quando se trata de segurança pública na lógica do confronto, na militarização dos territórios e na expansão do aparato repressivo. Mas quando se trata de proteger quem defende a vida, a terra e os direitos coletivos, o orçamento desaparece e o interesse some.
E sejamos honestos: o colapso do programa não surpreende. Ele foi anunciado muito antes do fracasso do edital. Sem planejamento, sem verba estável e sem vontade política, não havia como ser diferente.
Não faltam soluções. Faltam escolhas. A omissão estatal do Rio de Janeiro não é neutra, ela agrava os riscos e legitima a violência contra quem luta por justiça social. O momento exige compromisso efetivo do Executivo e fiscalização rigorosa do Judiciário para garantir que o PEPDDH/RJ deixe de ser promessa e se torne instrumento eficaz de proteção. O tempo para agir é agora.
Guilherme Gama é advogado criminalista e mestre em Direito e Processo Penal
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