Publicado 17/09/2025 00:00
Desde cedo compreendi o impacto de não corresponder às expectativas do meio em que cresci. Como homem gay, vivi olhares inquisidores, silêncios ensurdecedores e rejeições veladas que marcaram minha infância e adolescência. Durante anos aprendi a ocultar quem realmente era — não por escolha, mas por sobrevivência em um ambiente que não me toleraria.
PublicidadeAssumir minha sexualidade foi um processo tardio e libertador. Apenas aos 24 anos, após um longo percurso terapêutico, consegui me olhar no espelho sem medo ou culpa. As marcas da educação rígida e dos dogmas religiosos só foram transformadas com acompanhamento psicológico e mergulho interior. Penso nas pessoas que ainda hoje precisam esconder parte de si para manter espaço no mercado de trabalho ou até dentro da própria família.
Foi dessa travessia íntima que nasceu também minha literatura. A ficção se tornou refúgio, resistência e voz. Escrevendo, transformei dores em narrativa, silêncios em histórias e invisibilidades em personagens. Contar histórias é iluminar zonas de sombra e oferecer ao leitor a chance de enxergar o humano em sua pluralidade.
Quando falo de diversidade e inclusão, não me refiro a discursos protocolares, mas a vidas concretas. Penso nas crianças e adolescentes que, como eu, crescem acreditando não haver lugar para si. Infelizmente, os números confirmam essa brutalidade: em 2024, foram assassinadas 105 pessoas trans no Brasil, segundo o Dossiê da Rede Trans Brasil. Globalmente, o Trans Murder Monitoring apontou cerca de 350 assassinatos, 70% deles na América Latina e Caribe.
Quando falo de diversidade e inclusão, não me refiro a discursos protocolares, mas a vidas concretas. Penso nas crianças e adolescentes que, como eu, crescem acreditando não haver lugar para si. Infelizmente, os números confirmam essa brutalidade: em 2024, foram assassinadas 105 pessoas trans no Brasil, segundo o Dossiê da Rede Trans Brasil. Globalmente, o Trans Murder Monitoring apontou cerca de 350 assassinatos, 70% deles na América Latina e Caribe.
Esses dados mostram que a violência contra a população LGBTQ+ não é ficção distópica, mas uma realidade cruel. E o futuro preocupa: líderes conservadores e autoritários, em diversos países, tentam reduzir ou excluir direitos conquistados. Ameaças recaem não apenas sobre pessoas LGBTQ+, mas também sobre negros, indígenas, mulheres e pessoas com deficiência.
Diversidade é reconhecer que cada ser humano carrega uma singularidade irrepetível. Inclusão é garantir que essa singularidade seja respeitada e celebrada.
Para enfrentar o preconceito, acredito em três pilares: educação, empatia e coragem. Educação para desvelar preconceitos, empatia para reconhecer no outro o mesmo direito de existir e coragem para afirmar a própria identidade mesmo em ambientes hostis. A autoaceitação é um marco, mas a verdadeira transformação ocorre quando a sociedade inteira se dispõe a garantir liberdade e dignidade a todos.
Em meu romance Verty Society, personagens diversos são perseguidos por um regime que instrumentaliza a religião como forma de opressão. Escrever foi minha maneira de reelaborar dores e lançar um alerta sobre os riscos de uma sociedade que nega a diferença.
Diversidade e inclusão não são concessões generosas, mas direitos inalienáveis. Que possamos avançar rumo a um futuro em que ninguém precise ocultar sua essência para ser aceito — nem na vida real, nem na literatura.
Fénelon Tartari é publicitário e autor do romance Verty Society, obra de ficção distópica que combina fantasia e crítica social
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