Antônio Geraldo da SilvaDivulgação
Publicado 30/09/2025 00:00
Recentemente, fui questionado com uma pergunta simples, mas carregada de profundidade: “Doutor, conversar ajuda?”. A resposta é sim. A palavra é um bálsamo inicial, um primeiro socorro da alma. É o gesto que rompe o silêncio e lembra à pessoa em sofrimento que não está sozinha. É como nos lembra a literatura, quando um personagem de Machado de Assis encontra alívio ao compartilhar seu tormento. Falar é um ato de coragem, e esta é a essência do Setembro Amarelo: romper o silêncio é fundamental.
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Mas também é meu dever, guiado pela ética e pela ciência, esclarecer que apenas conversar não basta. Assim como um mal-estar cardíaco exige mais do que um abraço, a dor que leva alguém a pensar em suicídio precisa de cuidado especializado. Quem sofre não deseja morrer, deseja apenas que a dor cesse. Como escreveu Drummond, busca-se “o silêncio da dor que não se ouve”. Por isso, frases como “vai passar” ou “pense positivo”, mesmo bem-intencionadas, podem soar como descaso. É como tentar estancar uma
hemorragia com um curativo de palavras: insuficiente e perigoso.
O acolhimento de amigos e familiares é precioso, mas não substitui o diagnóstico e o tratamento baseados em evidências. Cabe ao psiquiatra e aos profissionais de saúde mental decifrar sinais, avaliar riscos e oferecer terapias eficazes. É nossa função, com preparo técnico e sensibilidade, conduzir a travessia dessa tempestade interior. fale, apoie, mas também incentive o cuidado profissional.

Muitas pessoas, com medo do julgamento, procuram se abrir apenas de forma anônima. Embora possa aliviar em um primeiro momento, essa escuta exige preparo técnico, ética e responsabilidade. Não pode ser feita por qualquer pessoa. Orientações mal conduzidas podem agravar o quadro. É por isso que a Associação Brasileira de Psiquiatria - ABP reforça: procure profissionais capacitados, em serviços reconhecidos das redes públicas e privadas de Psiquiatria.

O atendimento especializado garante tranquilidade, mas também proteção real. Avaliamos se há transtornos não tratados, verificamos o uso correto de medicamentos, e quando o
risco é iminente, acionamos os recursos de emergência. No Brasil, o SAMU está preparado para emergências. Nessas horas, não hesite: exija, peça ajuda urgente! Mas salvar vidas não se resume à crise. É um processo contínuo, feito de acompanhamento, de consultas regulares, de cuidado que se prolonga no tempo. É reconstruir, pedra por pedra, a vontade de viver. Como na poesia, é reescrever uma narrativa de dor em uma história de resistência e de esperança.

E se você acredita que não tem rede de apoio, lembre-se: apoio pode existir em diferentes lugares. Converse com um vizinho, com membros de uma igreja, com colegas de escola ou de trabalho, com alguém de grupos que você frequenta. Não é preciso ter uma relação íntima para pedir ajuda. O essencial é proteger a sua vida. Busque o espaço em que se sentir mais confortável, e não enfrente sozinho essa dor.

Todos nós enfrentamos perdas, dívidas, rupturas, lutos e dificuldades. Algumas histórias são marcadas por dores intensas, mas ainda assim, vale sempre a pena viver. A vida se transforma, se reorganiza, encontra novos significados. Nada é estático, e mesmo a noite mais longa dá lugar ao amanhecer. Nascemos com o propósito da vida e preservar esse propósito é o que nos mantém inteiros.

Se a vida imita a arte, que seja então uma narrativa de superação. Que o diálogo derrube preconceitos, e que a ciência aponte caminhos seguros. Porque a ajuda existe, é eficaz e está ao alcance de todos. E, porque a vida é a nossa maior obra. Se precisar, peça ajuda.
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria
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