Isa Colli é escritora e jornalista Divulgação
Publicado 21/10/2025 00:00
Mesmo após o cessar-fogo, Gaza continua em ruínas. O que deveria representar alívio, tornou-se apenas uma pausa breve no sofrimento de um povo que luta pela sobrevivência. Em meio ao caos, persistem acusações mútuas de violações do acordo entre Israel e o Hamas, pairando no ar a dúvida sobre quanto tempo durará essa trégua frágil.
Publicidade
A fome e a desnutrição avançam sobre uma população exaurida, e a ajuda humanitária chega com dificuldade… quando consegue chegar.
De acordo com o sistema IPC, ferramenta global para analisar e classificar a insegurança alimentar, quase um quarto dos palestinos em Gaza vive hoje em situação de fome extrema. Pessoas se amontoam para tentar conseguir comida; crianças adoecem por falta de nutrientes e remédios… O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, classificou a crise como “um desastre causado pelo homem, uma acusação moral e um fracasso da humanidade”. E ele tem razão.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU afirma que, apesar do esforço crescente, a quantidade de comida que entra no enclave é insuficiente. Estradas destruídas, fronteiras fechadas e bloqueios constantes tornam o acesso ao norte de Gaza quase impossível. O cenário é de escassez absoluta.
Há, no entanto, quem resista. Médicos, jornalistas e voluntários de vários países tentam levar alimentos, medicamentos e equipamentos médicos até o território sitiado. São embarcações pequenas, carregadas de solidariedade. E, mesmo assim, muitas são interceptadas antes de chegar ao destino.
Esses homens e mulheres insistem em desafiar o bloqueio porque entendem que impedir a chegada de comida e remédios é negar o direito à vida. Em dois anos de guerra, mais de 67 mil palestinos foram mortos, entre eles milhares de crianças.
O historiador israelense Omer Bartov, especialista em genocídios, alertou recentemente: “O que Israel faz em Gaza não tem precedentes no século 21.” Quando uma voz como a dele se levanta, é sinal de que o limite da humanidade já foi ultrapassado.
O cotidiano em Gaza é o retrato do colapso: escolas e hospitais destruídos, famílias dizimadas, ruas transformadas em escombros. Ainda assim, há quem acredite que vale a pena lutar para salvar vidas. As flotilhas e comboios de ajuda não mudam a situação, mas lembram ao mundo que a compaixão também pode ser um ato de resistência.
O cessar-fogo talvez seja temporário, mas o dever de socorrer é permanente. Em meio à destruição, a ajuda humanitária não leva apenas alimentos. Leva dignidade e a esperança de que dias melhores ainda são possíveis.
Por Isa Colli, jornalista e escritora
Leia mais