Publicado 19/11/2025 00:00
O anúncio de Toy Story 5, previsto para 2026, reacendeu um debate que há tempos ronda famílias, educadores e especialistas. Nos trailers divulgados, os brinquedos clássicos enfrentam uma inesperada rival: Lilypad, um tablet que se transforma no objeto de maior fascínio das crianças. A metáfora é direta e desconfortável. Afinal, o brincar tradicional está realmente cedendo espaço para as telas? E, se sim, o que isso revela sobre nós — adultos, cuidadores, responsáveis por orientar esse processo?
Embora meus filhos já estejam crescidos, observo com atenção a angústia de muitos amigos que lutam para impor limites ao uso de dispositivos eletrônicos. Não é raro que se sintam derrotados diante da insistência dos filhos e da exaustão da rotina. A questão, no entanto, vai muito além de regras familiares. Ela expõe um dilema contemporâneo: em um mundo acelerado, sobrecarregado e exigente, a tecnologia parece oferecer uma espécie de pausa. Quando a criança se fixa em uma tela, o adulto ganha alguns minutos preciosos de silêncio e descanso. Mas, como toda solução imediata, isso também pode cobrar um preço.
Usar telas não é, por si só, um problema. Jogos eletrônicos podem estimular raciocínio, coordenação, criatividade. Vídeos podem ensinar, divertir, expandir repertórios. O perigo surge quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar de companhia permanente, distração prioritária ou mesmo válvula de escape emocional. Crianças que passam horas diante de aparelhos podem ter menos oportunidades de conviver, negociar conflitos, inventar histórias e explorar o mundo real — experiências fundamentais para o desenvolvimento emocional e cognitivo.
Esse debate não envolve apenas brinquedos. Ele chega também aos livros. Em tempos de excesso digital, vemos crianças mergulharem no mesmo tipo de tela para estudar, brincar, socializar ou se distrair. O livro físico, com sua materialidade silenciosa, compete com notificações, algoritmos e estímulos rápidos. Não se trata de demonizar o e-book, que democratiza o acesso à leitura e facilita a vida de muitas famílias. Trata-se, sim, de reconhecer que a leitura em papel convida a outro ritmo, uma outra presença, um outro tipo de relação com a história. E talvez seja justamente esse ritmo desacelerado que esteja em falta.
É sempre encantador observar crianças brincando ao ar livre, correndo, inventando jogos, transformando qualquer pedaço de papelão em um castelo ou uma nave espacial. O brincar livre — esse que nasce da imaginação e não de um aplicativo — é o palco onde a criança testa limites, experimenta ideias, expressa sentimentos e cria memórias. Em um mundo cada vez mais mediado por telas, preservar esse espaço se torna um ato de cuidado.
Não existe receita pronta. Limitar o tempo de tela exige presença real, aquela que não pode ser substituída por nenhum aparelho. Resgatar brincadeiras demanda intenção. Ler com os pequenos pede tempo, disponibilidade e escuta. São escolhas difíceis, especialmente em rotinas que já começam cheias e terminam exaustas. Mas talvez seja justamente por isso que valham ainda mais a pena.
Antes mesmo de estrear, Toy Story 5 nos convida a refletir sobre prioridades. O filme poderá ser apenas mais uma aventura divertida, mas também pode funcionar como espelho — um lembrete de que, assim como Woody, Buzz e tantos outros personagens, as infâncias de hoje também enfrentam desafios inéditos. E cabe a nós decidir de que forma vamos acompanhar esse processo.
PublicidadeEmbora meus filhos já estejam crescidos, observo com atenção a angústia de muitos amigos que lutam para impor limites ao uso de dispositivos eletrônicos. Não é raro que se sintam derrotados diante da insistência dos filhos e da exaustão da rotina. A questão, no entanto, vai muito além de regras familiares. Ela expõe um dilema contemporâneo: em um mundo acelerado, sobrecarregado e exigente, a tecnologia parece oferecer uma espécie de pausa. Quando a criança se fixa em uma tela, o adulto ganha alguns minutos preciosos de silêncio e descanso. Mas, como toda solução imediata, isso também pode cobrar um preço.
Usar telas não é, por si só, um problema. Jogos eletrônicos podem estimular raciocínio, coordenação, criatividade. Vídeos podem ensinar, divertir, expandir repertórios. O perigo surge quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar de companhia permanente, distração prioritária ou mesmo válvula de escape emocional. Crianças que passam horas diante de aparelhos podem ter menos oportunidades de conviver, negociar conflitos, inventar histórias e explorar o mundo real — experiências fundamentais para o desenvolvimento emocional e cognitivo.
Esse debate não envolve apenas brinquedos. Ele chega também aos livros. Em tempos de excesso digital, vemos crianças mergulharem no mesmo tipo de tela para estudar, brincar, socializar ou se distrair. O livro físico, com sua materialidade silenciosa, compete com notificações, algoritmos e estímulos rápidos. Não se trata de demonizar o e-book, que democratiza o acesso à leitura e facilita a vida de muitas famílias. Trata-se, sim, de reconhecer que a leitura em papel convida a outro ritmo, uma outra presença, um outro tipo de relação com a história. E talvez seja justamente esse ritmo desacelerado que esteja em falta.
É sempre encantador observar crianças brincando ao ar livre, correndo, inventando jogos, transformando qualquer pedaço de papelão em um castelo ou uma nave espacial. O brincar livre — esse que nasce da imaginação e não de um aplicativo — é o palco onde a criança testa limites, experimenta ideias, expressa sentimentos e cria memórias. Em um mundo cada vez mais mediado por telas, preservar esse espaço se torna um ato de cuidado.
Não existe receita pronta. Limitar o tempo de tela exige presença real, aquela que não pode ser substituída por nenhum aparelho. Resgatar brincadeiras demanda intenção. Ler com os pequenos pede tempo, disponibilidade e escuta. São escolhas difíceis, especialmente em rotinas que já começam cheias e terminam exaustas. Mas talvez seja justamente por isso que valham ainda mais a pena.
Antes mesmo de estrear, Toy Story 5 nos convida a refletir sobre prioridades. O filme poderá ser apenas mais uma aventura divertida, mas também pode funcionar como espelho — um lembrete de que, assim como Woody, Buzz e tantos outros personagens, as infâncias de hoje também enfrentam desafios inéditos. E cabe a nós decidir de que forma vamos acompanhar esse processo.
Isa Colli é escritora e jornalista
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