Publicado 13/01/2026 00:00
A crise do Banco Master, após investigações da Polícia Federal e a liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central, reacende uma discussão essencial em qualquer mercado maduro: quem deve ser protegido quando uma instituição crítica colapsa? No setor financeiro, a resposta é objetiva. O investidor pessoa física conta com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), um mecanismo testado e transparente, capaz de absorver parte das perdas e preservar a confiança no sistema.
PublicidadeNa Saúde Suplementar, porém, a lógica é inversa; e preocupante. Não existe fundo garantidor, colchão de liquidez ou plano de contingência eficaz. Na prática, inexiste proteção para a rede prestadora que sustenta o sistema. Enquanto investidores são protegidos no mercado financeiro, hospitais, clínicas, laboratórios e empresas de cuidado domiciliar seguem financiando atendimentos a milhares de beneficiários sem receber. O risco é integralmente transferido à ponta, como se a insolvência das operadoras fosse um problema privado dos prestadores, e não uma falha sistêmica e regulatória.
A crise da Unimed-Rio e, depois, da Unimed Ferj, reúne todos os elementos de um colapso institucionalizado: passivos bilionários, modelo financeiro inviável e operação mantida de forma precária. Ainda assim, prestadores continuam sendo pressionados a sustentar a rede, arcando com um rombo que não criaram. Hospitais acumulam anos de inadimplência, empresas de cuidado a pacientes crônicos enfrentam dívidas insustentáveis e clínicas essenciais já interrompem atendimentos por absoluta inviabilidade financeira.
Esse cenário se agrava diante da postura da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que insiste em tratar reorganizações administrativas como soluções estruturais, sem exigir garantias mínimas de pagamento e continuidade da assistência. O paralelo com o Banco Master evidencia uma grave assimetria regulatória. No mercado financeiro, mecanismos de proteção não evitam crises, mas impedem que seus efeitos destruam a base do sistema. Na saúde suplementar, cada crise gera um ciclo recorrente de inadimplência, desassistência e improviso.
A Unimed-Rio deixou um passivo bilionário; a Unimed Ferj assumiu prometendo reequilíbrio, mas entregará uma dívida ainda maior; e agora a Unimed do Brasil ingressa na operação sem garantias formais de quitação dos valores em atraso. Diferentemente do sistema bancário, no qual o FGC protege o cidadão comum, na saúde suplementar quem financia a insolvência é quem está na linha de frente salvando vidas.
Não se trata apenas de atrasos a fornecedores. Está em jogo a sustentabilidade de todo o ecossistema de saúde, afetando redes hospitalares, clínicas especializadas, oncologia, UTIs e home care. A inadimplência crônica compromete investimentos, capacidade operacional e amplia um risco já concreto: a desassistência.
É urgente enfrentar o debate estrutural: um sistema com mais de 50 milhões de beneficiários não pode existir sem fundo garantidor, regras claras de insolvência e proteção à rede prestadora. Quando um banco quebra, o investidor é protegido. Quando uma operadora quebra, o hospital paga a conta e o paciente perde o atendimento.
Guilherme Jaccoud é presidente do Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Estado do Rio de Janeiro (SindhRio)
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