Publicado 09/02/2026 00:00
É comum a ideia de que a formação de hábitos ocorre em pouco tempo. No entanto, mudanças comportamentais, especialmente no tratamento psiquiátrico, exigem um processo progressivo, com tempo, constância, disciplina e compromisso. Não é imediato nem linear, envolve a construção consciente de uma relação responsável com a própria saúde.
PublicidadeNesse contexto, dois conceitos centrais são frequentemente confundidos: adesão e aderência. Compreender essa diferença ajuda a entender por que tantos tratamentos são interrompidos precocemente ou realizados de forma irregular.
Na terminologia médica, adesão refere-se ao grau de concordância do paciente com a proposta terapêutica. Na Psiquiatria, trata-se de um processo ativo e subjetivo, que envolve reconhecimento do adoecimento, aceitação do diagnóstico, compreensão dos objetivos terapêuticos, construção de vínculo com o psiquiatra e corresponsabilização pelas decisões clínicas. É o engajamento consciente no cuidado, entendendo o tratamento como um percurso contínuo, e não apenas como alívio imediato de sintomas.
A aderência diz respeito à dimensão prática do tratamento: uso correto das medicações, comparecimento às consultas, realização de exames, participação em psicoterapia e mudanças na rotina. É como o tratamento é executado no cotidiano. Pode haver aderência sem adesão plena, quando as orientações são cumpridas de forma mecânica, sem compreensão ou vínculo, tornando o tratamento frágil e instável.
O tratamento psiquiátrico não se restringe ao uso de medicamentos. Em quadros como depressão leve, psicoterapia, atividade física, sono adequado, alimentação equilibrada e manejo do estresse são intervenções terapêuticas formais. Aderir apenas aos fármacos, sem incorporar essas estratégias, compromete os resultados.
Expectativas irreais sobre a ação das medicações também interferem. Psicofármacos exigem semanas para efeito terapêutico, podendo ocorrer efeitos colaterais transitórios, o que reforça a importância do acompanhamento médico. A melhora dos sintomas não significa cura, e a suspensão do tratamento sem orientação pode levar a recaídas ou agravamento do quadro.
Fatores psicossociais, como estigma e autoestigma, dificultam a continuidade do tratamento, enquanto o apoio familiar fortalece tanto a adesão quanto a aderência. Assim, o que sustenta o tratamento psiquiátrico é a articulação entre compreensão, engajamento e execução. Adesão e aderência são pilares complementares de um cuidado baseado na parceria, na informação e na corresponsabilidade.
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria
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