Publicado 08/02/2026 00:02
É uma dor incontida. Um atravessado de informações que perfuram a alma e que barulham os sentidos ininterruptamente.
Eu queria apenas o silêncio. E alguma leitura de um poema leve. E um sono sem imagens. E um abrir as janelas sem a lembrança que desafia qualquer outra lembrança.
Penso com pensamentos possuidores de algum alívio. Há outros no mundo. Há outros mundos.
Há o tempo arrumador dos sobressaltos. Penso em teorias. Sei que sou um ser biológico e um ser simbólico. O biológico é animal. O simbólico é o que quer se imortalizar. Ouço música e me calo. A arte é uma imortalidade.
Converso com Deus. Digo a ele que sou pequeno demais e que só me faço grande Nele. E sinto paz. Depois, vem a tormenta novamente.Saio em busca de mim. E encontro a imagem da paixão, que arde.
Pensamentos outros vou buscando para o alívio. Digo a mim que sofro, hoje, as ausências da infância. Nem sei. Digo mais. Digo que sofro, hoje, por não dar conta do meu desamparo. O mundo é tarefa de valentes. Eu sou um nada. É o que sinto. Depois da troca. Depois da impossibilidade de prosseguir.
Projetei no meu amor um ser quase divino. Um suspiro idílico. Uma perfeição escrita em poemas. A prosa foi outra. Somos humanos. Um parte luz e outra, sombra. Uma parte voa, comunga com o universo, expande. E outra rasteja, suplica e, um dia, há de alimentar os vermes.
Somos vida e morte.
Leio nos tratados de antigamente e nas dores das pessoas que vivem o meu tempo o mesmo vazio. Somos criação nossa. E nem sempre nos aguentamos. Viver comigo tem sido uma promessa de reviver. Ou de desviver.
Se eu pudesse apagar o que me apaga. Se eu pudesse não ter vivido o tempo da entrega. Se eu pudesse não ter conhecido.
Não posso. Sou ferida hoje. Já fui outras vezes. Amanhã serei cicatriz. E contemplarei os traços da minha alma, vitorioso. Por não ter trancado as portas. Por ter aceitado, mais uma vez, ceder ao encanto.
Não posso. Sou ferida hoje. Já fui outras vezes. Amanhã serei cicatriz. E contemplarei os traços da minha alma, vitorioso. Por não ter trancado as portas. Por ter aceitado, mais uma vez, ceder ao encanto.
A vida é encanto.Ou isso ou nos entregamos ao medo da vida. E ao medo da morte.Se o meu eu simbólico minorar o meu eu biológico, incorro em erro. O meu eu simbólico tem fome do eterno, o meu eu biológico envelhece. O meu eu biológico tem as necessidades de todos os animais. Inclusive, dos despejos orgânicos. O meu eu simbólico idealiza futuros intermináveis e constrói memórias do passado. E ora para fazer parte da oração universal dos que conhecem a beleza do sorriso.
Sorriso?Não hoje. Hoje, a paixão arde no meu corpo. No corpo que se acende de desejos. Que lembra do toque, do êxtase, do gozo, da entrega. Que recorre aos dizeres de eternidade. Eternidade é tema do simbólico. Como a expansão da alma em busca do paraíso. E os seres se confundem. O físico jura o que vai além. O físico não vai além.
A beleza do instante morre no instante. No físico. Permanece o simbólico.Sei de saber que as projeções não nos realizam. Que o outro é o outro e não a ideia que criei de completude. De almas que vagam e que se encontram no luar certo. E que se unirão para sempre. Sei de saber, não de sentir.
O que sinto é vulcão, é larva que queima, é a dor do mundo inteiro em mim.Ouço alguma lucidez da minha alma que celebra o sentir.E que balbucia alguma paciência.Recosto nas forças que me restam e tento ouvir.
Um dia, o dia de hoje será lembrança. E, talvez, eu ria e até repreenda a mim mesmo pela desmedida.Pelo desassossego de não amanhecer com os amanheceres e de desperdiçar os prazeres simples que alimentam o animal e o simbólico.
A água que tomo é a mesma que me lembra que a vida é rio que não para...
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