Eduardo FurtadoDivulgação
Publicado 13/02/2026 00:00
Sempre que surge uma reportagem sobre supersalários no serviço público, a reação é imediata: indignação, revolta e a sensação de que “todo servidor ganha demais”. A indignação é legítima. O problema começa quando ela é mal direcionada. Em vez de mirar nos reais beneficiários do sistema — uma casta bem protegida —, a crítica se espalha como um rótulo coletivo que atinge milhões de trabalhadores que jamais chegaram perto desses valores.
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Os chamados “penduricalhos” — verbas extras como auxílios, indenizações e gratificações — existem, são conhecidos e precisam ser enfrentados. São criados para não aparecerem como salário, mas, na prática, elevam a remuneração acima do teto constitucional. Funcionam como um atalho legal para poucos e ajudam a criar a falsa impressão de que todo servidor público vive sob privilégios. Mas é preciso dizer com clareza: eles não representam o serviço público brasileiro.
Dados de bases oficiais mostram que cerca de 70% dos servidores públicos recebem até R$ 5 mil mensais, e que metade ganha algo em torno de R$ 3,4 mil. Já os supersalários, acima do teto constitucional, concentram-se em menos de 1% do funcionalismo, quase sempre em carreiras muito específicas, localizadas no topo da estrutura estatal e amparadas por brechas legais e interpretações convenientes. Ainda assim, são esses casos extremos que dominam o noticiário e moldam a percepção pública.
Transformar exceções em regra é um erro que distorce o debate. Ao generalizar privilégios, cria-se um ambiente de demonização do servidor comum: o professor vira estorvo, o enfermeiro pesa, a fiscalização se torna mera burocracia e o agente administrativo dispensável. Profissionais que mantêm o Estado funcionando passam a ser tratados como vilões, enquanto os verdadeiros beneficiários do sistema permanecem fora do foco — protegidos pelo ruído que eles próprios ajudam a produzir.
Quem ganha com isso? Não é o cidadão. O escândalo vira cortina de fumaça. A indignação coletiva legitima cortes, congelamento salarial e precarização de carreiras que nunca alcançam o andar de cima. Combate-se o privilégio no discurso, mas preserva-se o privilégio na prática, com custos que acabam sendo socializados.
É nesse ponto que o tema se conecta às propostas de Reforma Administrativa. O discurso anticorrupção e antissupersalário vira combustível político para mudanças que fragilizam a base do funcionalismo, mas não enfrentam de forma estrutural o chamado “Império dos Penduricalhos”. O topo segue blindado, enquanto a conta continua descendo.
Combater supersalários é necessário e inegociável. O que não é aceitável é usar o privilégio de poucos como desculpa para atacar milhões. Generalizar rende manchete e aplauso fácil. Difícil mesmo é enfrentar quem concentra poder, verba e silêncio institucional. Enquanto isso não acontecer, o chamado “combate aos privilégios” seguirá sendo apenas isso: duro com quem não manda e cauteloso com quem manda muito.
Eduardo Furtado é servidor público da área fiscal do município do Rio de Janeiro
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