Isa ColliDIVULGAÇÃO
Publicado 16/02/2026 00:00
O Carnaval é, historicamente, celebrado como a maior expressão da alegria popular brasileira. Durante alguns dias, a rotina é suspensa, as ruas se transformam e a ideia de liberdade ganha protagonismo. No entanto, passada a euforia, uma reflexão se impõe: que valores emergem quando os limites são tratados como exceção?
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O recente ressurgimento do debate em torno do caso de Jeffrey Epstein, impulsionado pelo vazamento de documentos judiciais, revelou mais do que crimes individuais. Escancarou uma cultura de permissividade, silêncio e poder, na qual abusos foram normalizados para que ambientes festivos e relações de influência não fossem questionados.
Esse mecanismo social — a suspensão da crítica em nome da manutenção da festa — não é exclusivo de contextos distantes ou elitizados. Ele também se manifesta, em escala social, durante o Carnaval.
Dados oficiais mostram que, nesse período, aumentam as denúncias de assédio sexual, violência contra mulheres, violações de direitos de crianças e adolescentes, além dos atendimentos de emergência associados ao consumo excessivo de álcool. Ainda assim, esses episódios são frequentemente relativizados como excessos pontuais ou consequências inevitáveis da celebração.
O problema não reside na festa em si, mas na confusão recorrente entre liberdade e ausência de responsabilidade. Alegria não deveria pressupor desrespeito, assim como cultura não pode se sustentar na banalização do sofrimento alheio.

O Carnaval também evidencia desigualdades profundas. Enquanto muitos desfrutam dias de lazer, milhares trabalham intensamente para garantir que a festa aconteça — profissionais da saúde, da limpeza urbana, da segurança e do comércio informal. Para esses, a folia não é escolha, mas necessidade.
A principal lição, tanto dos escândalos internacionais quanto da experiência cotidiana da festa, é clara: abusos não se perpetuam apenas por ações individuais, mas pela conivência coletiva. Quando o silêncio é mais confortável do que o confronto, a violência encontra espaço.
O Carnaval passa, como passam as manchetes e os escândalos. O que permanece são os valores que escolhemos relativizar — ou defender — quando a consciência é colocada à prova.
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