Publicado 15/02/2026 00:03
Nos conhecemos em um domingo de carnaval. Escolas de samba desfilavam seus temas e sua alegria.Eu estava com minha irmã e duas amigas. Ele estava com um amigo, apenas.
PublicidadeDiogo havia ido embora da minha vida, há não muito. Eu era uma mulher cujas rasgaduras pediam um tempo.É preciso algum respiro antes de um outro beijo.Não dei. Digo, não dei o respiro. Dei o beijo. Ele tinha pressa de mim, foi o que disse.
Seus olhos eram tão certeiros que a noite se prolongou e eu senti que os dias seguintes se prolongariam também. Ele era de uma beleza difícil de descrever.E de uma inteligência que também me fascinava. E de um romantismo.Eu juro que não estou construindo um alguém. Ele é um sedutor.
Aos poucos, o véu da paixão, o que nos impede outra visão, foi se desfazendo. A beleza sem a bondade é riacho raso para se banhar a vida.O sedutor, depois de seduzir, diz quem é em gestos que se seguem.
Nos espelhos tantos, ele se olhava sem pausas. E sem pausa olhava, também, nos olhos das outras mulheres.E quando os nossos olhos se olhavam, ele disfarçava.
Comecei a perceber que os meus assuntos não eram assuntos que o interessavam. Isso depois de algum tempo. No tempo da sedução, tudo meu era único.Seu ciúme das minhas amizades não combinava com suas noites de desaparecimentos.
Minha irmã ouviu histórias das histórias de encontros outros.Desacreditei. Inventei teorias de inveja. Mais de uma amiga disse o mesmo. Dei de ombros.
Confesso que as noites com ele não traziam o prazer dos seus olhos. Parecia que ele olhava para si mesmo, que desejava a si mesmo, que eu era apenas uma companhia para assistir ao seu prazer.
Convenci a mim mesma que o tempo ajeita esses desajeitos. Que os nossos corpos haveriam de conversar melhor.Eugênio, ah, esse é o seu nome, dizia mais do que fazia. E, talvez, mais do que sentia.
Um dia, nos encontramos por acaso. Ele estava com uma outra mulher.Eu deixei que ele me visse e sai.Não sou dos arroubos.Ele ficou alguns dias sem me procurar e, depois, surgiu.
Nesse tempo, outras notícias de sedução em sedução chegaram até mim.Fico pensando no seu vazio, no vazio de um sedutor. Na incapacidade de viver a sinceridade em uma relação.E foi sobre isso que ele disse quando voltou. Que eu era a mulher da sua vida, que ele jamais sentiu com outras o que sentia comigo. Que ele era meu.
As palavras iam saindo como em uma ala coreografada de uma escola de samba. Linda. Mas que passa. E que vem outra. E depois outra.O ritmo dos seus dizeres já não emocionavam.
Eu disse que, se ele queria uma relação aberta, deveria ter proposto. Ele disse que jamais aceitaria.Eu disse que preferia a sinceridade. Ele disse que eu via onde não havia. Que uma coisa é seduzir as mulheres, outra coisa é ser delas.
Eu disse que gostei de ele assumir o que era. Ele disse que eu confundi.Eu disse que eu também poderia seduzir outros homens. Ele disse que as necessidades das mulheres são diferentes das necessidades dos homens.Eu disse nada.
Lamentei o tempo da perda de tempo.Lembrei do Diogo. Tive saudade. Demiti rapidamente a saudade. O erro de hoje não pode me levar ao erro de ontem.
Lembrei dessa história por ter encontrado com Eugênio ontem, no sábado de carnaval. O carnaval que nos conhecemos já mora na década que passou.Ele veio ao meu encontro e disse que eu era a mulher mais linda da noite. Eu sorri educada. Ele viu que eu estava acompanhada.
Aproveitou um instante de ausência e se apresentou.Eu vi que ele também estava acompanhado. A mulher o procurava de um lado a outro.Nenhum sentimento novo surgiu, nem emergiu nenhum desejo de ontem. Apenas agradeci por ter demitido as vírgulas e colocado um ponto final naquela breve história.
Em uma história de amor, os olhares precisam se olhar e dizer sinceridade.
Em uma história de amor, a sedução gostosa se dá entre os dois. Os assuntos e corpos vão se entendendo. E o tempo vai agradecendo o primeiro encontro.
Com quem eu estava na noite de ontem?Com Renato. Nos conhecemos há alguns anos. Nós e as nossas imperfeições. A diferença? Nos olhamos sem necessidade de outros olhares.
Os desfiles de ontem estavam lindos. E depois também. Como é bom chegar junto em casa e viver a rotina gostosa do amor. Do amor que compreende o tempo e o jeito do outro. Do amor que é cachoeira nos inícios e que tem a profundidade necessária depois para bons banhos.
Vai durar? Espero que sim. Enquanto eu encontrar beleza na sua bondade, prosseguirei...
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