Manoel Valente Figueiredo NetoDivulgação
Publicado 20/02/2026 00:00 | Atualizado 20/02/2026 11:28
A vida não é posse. É travessia. Não estamos aqui para dominá-la, mas para sermos atravessados por ela. Existir é mover-se, mesmo quando parece que nunca saímos do lugar. O ser não é apenas corpo: é impulso, é acontecimento. Chegamos ao mundo já carregando a promessa de nos tornar. A palavra não nasce de quem fala, mas do intervalo entre o olhar e o mundo. É nesse espaço, entre a asa e a raiz, entre a nuvem e a rocha, que o sentido acontece. Ninguém é dono dele.
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Somos apenas passagem. Há encontros que não duram no tempo, mas permanecem. Não acabam, transformam-se. Respeite o seu olhar. O mundo não se revela a quem apenas vê, mas a quem se deixa tocar. Olhar é o primeiro gesto ético da humanidade. Reconhecemos antes de explicar. Somos livres. E isso pesa. A existência não pede licença, pede escolha.A liberdade não consola. Convoca. Diz, o tempo todo: seja. Ela traz angústia, porque nada nos determina por completo. Mas também pode ser leve, e a leveza é uma escolha.
Firme na rocha. Flutuando no ar. Não como contradição, mas como criação que sustenta o paradoxo sem querer resolvê-lo. Ir longe sem perder a origem. Avançar sem romper o vínculo. Entre impulso e direção, uma voz insiste: vá criar, mas saiba de onde vem.
Criar é acordar para o que ainda não existe e ter coragem de habitá-lo. A arte não é ornamento. É modo de viver. É errar, refazer, continuar. É persistir e, às vezes, insistir. As artes são os enigmas das almas humanas: livres, inquietas, paradoxais. Ainda bem. Tudo o que está preso tende a se soltar. É essa força que nos move a seguir e ir.
A finitude não é apenas limite, é origem de sentido. Precisamos de âncoras para atravessar o que é fluido. E existir é isso: flutuar sem perder a raiz, criar sem abandonar o chão, escolher sem expulsar o mistério. Resistir é habitar o mundo interior sem querer possuir nada. Mover-se sem se perder. Deixar que o caminho ensine. Esperar quando for preciso, pois esperar também é agir, em outra velocidade.
No ser humano, ambíguo por natureza, corpo e consciência se entrelaçam. Interior e exterior conversam. O sentido nunca termina de nascer, pois não somos consciências isoladas, mas seres em relação. Há algo que nos atravessa, nos excede, nos pensa. Não é outro mundo. É a profundidade deste. Perceber esse interior é o chão de todo significado. Corpo, mundo e pensamento são dimensões do mesmo viver.
Somos lugar de passagem. E talvez viver seja exatamente isso: não endurecer. Aceitar trocar o “meu” pelo “nosso”. E então, seguir; deixando-o ir.
Manoel Valente Figueiredo Neto é Jurista e jornalista
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