Publicado 22/02/2026 00:02
Gosto de perfumar os ambientes.Eles parecem precisar de alguma atenção.É como se acendêssemos uma luz. Para que tudo possa ser visto.
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Visto uma roupa que gosto e parto para o trabalho.Trabalho com os Fernandes há um bom tempo.Dona Eulália diz que é difícil viver sem mim. Que sou das organizações.Passar roupas e saber que as cores vão sendo descansadas no armário, uma a uma. Como fica bonito.
E saber limpar. E gostar do perfume que permanece.Preparar a comida. Entender o tempo do cozimento. O tempero certo. Sentir o cheiro bom que os encontros vão proporcionando. O azeite no alho. As cebolinhas bem cortadas. O sal e alguns outros condimentos. E o prazer de alimentar.
Gosto de quase todos da família Fernandes. Não sou obrigada a gostar de todo mundo.
Na quarta-feira de cinzas, o senhor Fernando esteve por aqui. Ele é o irmão mais velho do meu patrão. São tão diferentes.Sei, da vida, que somos todos diferentes. Mas algumas diferenças não precisavam, penso eu.
Ele nunca me cumprimenta. Talvez considere que eu não precise de consideração.Falou disso sobre uma que trabalha em sua casa e que ele não recorda o nome. E falou com desprezo. Disse... melhor não dizer, dói em mim a dor que imagino doer no outro.
Tem gente que fica, porque não tem como não ficar. Pobre Sonia. Tem duas filhas para criar.O meu patrão, o professor João Fernandes, lamentou com ele os seus dizeres tão despropositados.Não vou repetir o que o primeiro disse. Vou repetir o professor.
Falou das cinzas. Do significado de nos lembrarmos de que somos pó. Que passaremos. Que morreremos. Lembrou do que disse o padre na missa. Não entendo quem vai à missa e não entende a missa. Não precisa ser letrado para saber a letra da religião. A palavra que liga é a palavra amor.
Falou ao irmão dos modos do irmão. A mulher o deixou. Os filhos não falam com ele. Os negócios foram se desfazendo.Os amigos, também. Vive a solidão dos que não amam, a maior solidão que há.
Dona Eulália prefere o silêncio quando o cunhado está.O professor é de uma paciência que admiro.Já chegou a desistir do irmão algumas vezes. Depois perdoou.Sei não. Algumas convivências desagradam a vida.
Não faz muito, Dona Eulália voltou aborrecida de um jantar em que o senhor Fernando maltratou um garçom. O professor pediu que ele se desculpasse. Saiu gritando. Ofendendo características humanas do garçom.Entendi que era sobre a cor da pele. Não entendo. Dona Eulália disse que o cunhado deveria era ser preso. Que o que antes era uma ofensa moral, hoje é crime.
Volto ao pensamento sobre as cinzas.Tão bonito o que o professor disse. Não somos nada. Morreremos. E, mesmo assim, somos tudo para quem amamos.
Quando volto para casa e vejo Vitória, minha filha, e brinco com o Gabriel e o Miguel, meus netos, é como se o mundo inteiro coubesse naquele cômodo de amor.
Minha filha é veterinária, diz brincando que prefere os bichos aos humanos. Insiste que eu não preciso mais trabalhar. Eu trabalho porque gosto.Gosto de ela se preocupar comigo, mas gosto, também, de decidir sobre a minha vida.
Também fui à missa. Também cantei as canções bonitas. Também prestei atenção à atenção que devemos ter no tempo da quaresma. O tempo que nos prepara para a Páscoa. A vitória da vida.Não é à toa que minha filha se chama Vitória. Ela nasceu depois de um tempo difícil. Meu marido morreu um pouco antes.
Sou das que choram o tempo certo e, depois, assumem o comando. Acredito que a vida vem de Deus, mas que as escolhas são nossas.Escolho a alegria como se escolhe um perfume.Vez em quando, é bom um perfume de cinzas. Um perfume que nos lembre que mesmo o aroma bom termina e que, por isso, é preciso sentir.
É assim que amanheço. Sentindo. É assim que deixo as noites morrerem. Noites sempre há.Enquanto eu estiver por aqui, peço a Deus que eu amanheça.Gosto de perfumar os ambientes.
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