IVANIR DOS SANTOSDIVULGAÇÃO
Publicado 02/03/2026 00:00
A resposta é simples: a força do desfile como narrativa nacional. São as pedagogias da Avenida, onde o samba ensina, a história ganha voz e a cultura popular se afirma como conhecimento. Pensar o Carnaval carioca sob uma perspectiva acadêmica é reconhecê-lo como fenômeno estético, político e pedagógico de alta complexidade. Além do entretenimento, o desfile constitui uma engrenagem de produção de memória coletiva e circulação de saberes. Em cerca de 70 minutos, cada agremiação articula pesquisa histórica, literatura, artes visuais, música, coreografia e crítica social, transformando a Avenida em sala de aula pública. O espetáculo emociona e ensina; celebra e problematiza; constrói narrativa coletiva.

O Carnaval deste ano evidenciou essa dimensão ao apresentar enredos centrados na ancestralidade negra, na religiosidade afro-brasileira e em figuras que sintetizam resistência cultural e intelectual. Narrativas biográficas reafirmaram o desfile como espaço de disputa simbólica e revisão historiográfica. Ao eleger personagens e tradições para o centro da cena, as escolas reescrevem a história oficial a partir da cultura popular, ampliando repertórios e tensionando silêncios históricos.

A Portela apresentou “O Mistério do Príncipe do Bará”, sobre Custódio Joaquim de Almeida, liderança espiritual afro-gaúcha do século XIX. Ao deslocar o foco para o sul do país, o enredo rompe leituras homogêneas sobre a presença negra no Brasil e evidencia redes de resistência religiosa. A Estação Primeira de Mangueira celebrou “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, exaltando saberes ancestrais e a herança afro-indígena, propondo uma ecologia de saberes que reconhece o conhecimento popular como epistemologia legítima. Já a Unidos de Vila Isabel homenageou Heitor dos Prazeres, conectando samba, artes visuais e ancestralidade africana, reafirmando o artista como intelectual popular. A Beija-Flor de Nilópolis apresentou “Bembé do Mercado”, retratando manifestação religiosa do Recôncavo Baiano e reafirmando as religiões de matriz africana como patrimônio cultural. Ao transformar o ritual em linguagem carnavalesca, contribuiu para o enfrentamento da intolerância religiosa. A Unidos da Tijuca levou à Avenida a trajetória de Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, ampliando o cânone literário ao inserir uma mulher negra e favelada no centro do espetáculo. O Paraíso do Tuiuti, com “Lonã Ifá Lukumi”, explorou a Santería afro-cubana e as conexões entre África, Caribe e Brasil, ressaltando a dimensão transnacional da diáspora africana.

Nesse contexto, ganha força simbólica a homenagem do Império Serrano a Conceição Evaristo. Ao definir o desfile como uma “aula pública”, a autora sintetizou o papel pedagógico da avenida: “É um prazer muito grande ver um texto literário criado a partir da experiência de uma mulher negra se tornar uma aula pública”, afirmou. A declaração legitima o Carnaval como espaço de circulação de saberes historicamente marginalizados. Quando a literatura da escrevivência ganha corpo, a Sapucaí confirma sua vocação como território de conhecimento. Aprende-se com o Carnaval que o Brasil foi forjado por camadas de ancestralidade, conflito e resistência; que a cultura popular produz conhecimento; que a arte pode operar como instrumento de justiça simbólica. O desfile traduz a pesquisa histórica em linguagem sensível e coletiva, democratizando temas complexos e fortalecendo a identidade nacional.
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Babalawô Ivanir dos Santos é professor e doutor, e ativista dos Direitos Humanos
 
 
 
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