Publicado 08/03/2026 00:02

Ouço vozes. Vozes de medo.O desconhecido amanhã, quando estou desprevenido, vem. Vem sem vir. Vem sofrido.
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Sofro pelo que não sei. Pelo que não sei se será. Solitário que sou.Fico desfazendo em mim o que não é perfeito, ignorando que o perfeito é céu que não se atinge.E eu estou na Terra. E no ar. Porque os pensamentos voam pelo cantos onde eu não deveria cantar. Não sou cantor.
Conheci um amor. Queria apresentar a esse amor um texto. Um texto que não compus. Um poema que não escrevi. Não poderia escrever. Não sou poeta.Sofro por não ter conhecido antes a palavra, a poesia e as fragilidades que me fazem querer um outro que não me quer.
Ele tinha tudo e nada. Tinha um dinheiro incontável e um incontável vazio.E garrafas também vazias.Bebia a vontade de desaparecer.Apareci para evitar.Ninguém é capaz de evitar o desaparecimento do outro. Sou um solitário narrador.Ouço vozes, sim. Todos ouvem.Um pensamento de amor é um canto doído e ventoso, quando o amor é só nosso.
Tentei dizer a ele a leveza da paz dos que se sabem sinceros.Suspendi as suspeitas mais de uma vez.Ofereci um ofício que nem sei, o de curar destinos.Desacredito dos destinos.
Sempre fui um fazedor de belezas. Um colecionador de instantes.Ria o rio sem testemunhas.Olhava a dança das nuvens e dançava imaginando. Limpo de outros pensamentos.Cultivava os afetos como quem cultiva jardins que brotam e que perfumam a vida.O desamor tem desacelerado a disposição para o simples.Prefiro o trancado. Não sei se 'prefiro' é a palavra.
Antes de encontrar, não buscava o encontro.Encontrei.Foram poucos encontros.Intensos.E, então, o fim.E uma saudade que me faz saudade os sorrisos de infância. Os que já nem vivem mais.Os cômodos já desmanchados para outras construções.É como se eu não estivesse construído ainda para aguentar rachaduras.
Saudade do tempo em que a despreocupação não fazia vergonha.Uma flor. Muitas flores. Um banho frio de cachoeira e um banho quente dentro de casa.
Dentro da casa de dentro de mim, hoje, tem dor.Medo de nunca mais amar. Medo do amanhã sem uma história.Durou tão pouco a história.Eu já tinha história antes. Antes do encontro. Por que não lembrar?
Desacredito de destino, já disse. Sou da liberdade. Sou dos que acreditam que a palavra e o sentimento nos fazem caminhos. Sou caminhante.Então, por que a saudade?Porque a saudade é, também, ciranda na dança da liberdade.
A saudade é reservatório de amor para reconstruir habitações bagunçadas pelo vento.O tal amor foi apenas um vento. Será que foi amor?
Saudade do pequeno pedaço de bolo que minha mãe guardava quando eu não estava.Se ela ainda estivesse...Colo de mãe é descanso de pensamento.Pensamento é, também, liberdade.Quando limpo.
Um vento de infância soprou agora o pensamento.Trouxe algum alívio.Algumas vozes de amor.Para enfrentar o desamor de hoje. A ausência e até a teimosia.Para fazer lembrar que amanhece.E, então, eu ouvirei outras vozes. E voltarei a colecionar os carinhos que o dia oferece. E até a agradecer a dor por acordar momentos de aconchegos que moram em mim.Como fazia o meu pai que lembrava uma oração bonita dizendo que "tudo passa".
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