JOSIER VILARDIVULGAÇÃO
Publicado 16/03/2026 00:00
Toda discussão séria sobre Reforma Administrativa esbarra em um ponto que muitos preferem evitar: pessoas.
Publicidade
O debate costuma girar em torno de salários, carreiras, estabilidade e orçamento. Raramente avança para a questão central: qualificação, desempenho e responsabilização.
O setor público brasileiro enfrenta desafios conhecidos, restrições fiscais, estruturas burocráticas pesadas, marcos regulatórios complexos e forte pressão por serviços de qualidade. Mas há um fator estruturante que atravessa todos esses problemas, um modelo de gestão de pessoas desconectado das necessidades reais da sociedade.
Reforma Administrativa não pode ser apenas rearranjo legal. Precisa ser, antes de tudo, uma reforma cultural. Isso implica redefinir o papel do servidor público: de detentor de prerrogativas para prestador de serviços ao cidadão. A sociedade não pode continuar sendo tratada como um detalhe no desenho institucional do Estado.
Não há como falar em modernização sem enfrentar a baixa ênfase histórica na qualificação continuada.
Boa parte dos servidores ingressa no Estado altamente treinada para o concurso e pouco preparada para a função real que irá exercer ao longo de décadas.
O aprendizado para na porta de entrada.
Além disso, a qualificação não pode ser apenas técnica. O serviço público do século XXI, em um mundo totalmente digital, paradoxalmente exige cada vez mais competências comportamentais: comunicação, gestão de conflitos, empatia, trabalho em equipe, tomada de decisão sob pressão, ética e liderança. São essas habilidades que diferenciam um Estado que funciona de um Estado que apenas existe.
A incorporação de tecnologias, inteligência artificial e plataformas digitais é necessária — mas insuficiente. Sem pessoas capacitadas para usá-las com critério, responsabilidade e visão sistêmica, a tecnologia se torna apenas um verniz moderno sobre práticas obsoletas.
Outro ponto crítico é a ausência de mecanismos efetivos de avaliação de desempenho. Avaliar não é punir — é qualificar, corrigir rumos, reconhecer bons profissionais e proteger a sociedade da ineficiência crônica. Um Estado que não mede resultados não governa, administra rotinas.
A famosa ideia de “fazer mais com menos” precisa ser substituída por outra, mais consequente: fazer melhor com pessoas melhores preparadas. Isso exige investimento, coragem política e enfrentamento de resistências corporativas. Não há atalhos.
Reforma Administrativa que ignora pessoas fracassa. Reforma que não enfrenta privilégios, cultura organizacional e ausência de responsabilização vira retórica. Um Estado moderno começa por servidores valorizados, capacitados, avaliados e comprometidos com a entrega à sociedade.
Sem isso, qualquer tentativa de modernização será apenas mais um capítulo do mesmo modelo que já se mostrou incapaz de responder às demandas do nosso tempo.
Josier Vilar é presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ)
Leia mais