Publicado 25/03/2026 00:00
O Brasil gosta de se apresentar como um país de diversidade religiosa. Mas, quando se trata das religiões de matriz africana, essa diversidade ainda encontra limites claros.
PublicidadeO debate voltou à tona após a decisão da cantora Claudia Leitte de alterar a letra da música Caranguejo, substituindo a referência à divindade Iemanjá. Há quem tente tratar o episódio como algo irrelevante, uma simples escolha pessoal ou religiosa. Não é.
Retirar de uma obra cultural a menção a um orixá não é um gesto neutro. Ao longo da história brasileira, apagar símbolos das religiões afro-brasileiras quase sempre esteve associado à tentativa de impor outra visão religiosa como dominante.
Essa lógica não é nova. Ela remonta ao período colonial, quando missionários europeus, especialmente os jesuítas, chegaram ao território brasileiro com a missão de catequizar povos indígenas e, posteriormente, também as populações africanas escravizadas. Suas crenças eram tratadas como algo a ser corrigido, substituído ou silenciado. Seus rituais foram perseguidos, seus símbolos proibidos e suas divindades demonizadas.
Essa tentativa histórica de apagar tradições deixou marcas profundas na formação da sociedade brasileira.
Por isso, quando a referência a um orixá é retirada de uma música popular para dar lugar a outra expressão religiosa, o gesto inevitavelmente dialoga com esse passado. Ainda que não seja essa a intenção, ele remete a uma lógica antiga: a de que uma fé deve ocupar o lugar da outra.
E isso acontece em um país onde a intolerância religiosa ainda é uma realidade.
Umbanda e Candomblé carregam uma longa história de perseguição no Brasil. Terreiros foram invadidos, líderes religiosos criminalizados e objetos sagrados destruídos. Durante décadas, professar essa fé significava enfrentar humilhação, discriminação e violência.
Infelizmente, essa história não ficou apenas nos livros.
Ataques a terreiros continuam acontecendo. Praticantes dessas religiões ainda são alvo de preconceito.
Nesse contexto, quando um artista com milhões de seguidores decide retirar o nome de uma divindade afro-brasileira de uma música popular, o gesto ganha um peso que ultrapassa a esfera individual.
Ele ecoa. Ele reforça a ideia de que essas tradições precisam ser escondidas para não incomodar. Ele ajuda a normalizar um preconceito que muitas pessoas ainda enfrentam diariamente.
Artistas têm liberdade de expressão. Mas também têm responsabilidade cultural.
Porque a intolerância raramente começa com violência explícita. Ela começa com pequenos gestos de exclusão, com silêncios convenientes e com o apagamento simbólico de uma cultura.
Foi diante desse cenário que apresentei o Projeto de Lei nº 7171/2026, que estabelece a vedação à alteração ou deturpação de versos de obras musicais que façam referência às religiões de matriz africana quando essa mudança lhes atribua conotação discriminatória.
Não se trata de censura. Trata-se de proteção cultural.
As religiões afro-brasileiras fazem parte da formação histórica do Brasil. Estão na música, no carnaval, na linguagem, na culinária e na própria identidade do país.
Apagar essas referências não é apenas mudar uma letra.
É reforçar a ideia de que uma parte da cultura brasileira pode ser silenciada. E isso, em pleno século XXI, é algo que o Brasil não pode mais aceitar.
Átila Nunes é deputado estadual, advogado e jornalista
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