Publicado 27/03/2026 00:00
Existe uma ilusão confortável no debate público: a de que o Estado é uma abstração. Não é. O Estado tem rosto, tem voz, tem cansaço. Para quem está na fila do SUS, o Estado é o enfermeiro. Para o aluno da escola pública, é o professor. Para quem precisa de um licenciamento, é o fiscal de plantão. A experiência do cidadão com o poder público não acontece nas leis, decretos ou portarias — acontece no encontro. E nenhum ato administrativo entrega empatia.
PublicidadeQuando essa ponte — o servidor — está rachada por exaustão, assédio ou precarização, o cidadão não atravessa. Fica isolado do outro lado, diante de um Estado que não chega. O que muitos chamam de crise do funcionalismo é, na prática, uma crise silenciosa de acesso à cidadania. Não aparece nos índices. Aparece na vida de quem foi embora sem ser atendido.
O efeito se instala no cotidiano, mas raramente é nomeado. O atendimento frio, a resposta automática, o olhar vazio. Não é má vontade — é defesa. O servidor que adoece aprende a se blindar para sobreviver. E, ao se proteger, levanta um muro onde deveria existir uma ponte. O problema não está no caráter de quem atende. Está nas condições em que atende. E isso muda tudo — ou deveria mudar.
O custo é alto — e não é só financeiro. É social, institucional, humano. Absenteísmo, rotatividade, descontinuidade de políticas públicas. Projetos que não amadurecem porque quem os executa não consegue se sustentar de pé dentro do sistema. A conta não aparece em planilha, mas aparece na vida real: no serviço que não chega, no direito que não se concretiza, na confiança que se esvai.
Como esperar excelência de quem opera no limite?
Como esperar excelência de quem opera no limite?
Fala-se muito em eficiência, metas, resultados. Pouco se fala em capacidade estatal real — aquela que depende, inevitavelmente, de gente. Um Estado só entrega aquilo que suas engrenagens humanas conseguem suportar. Não existe serviço nota dez entregue por um servidor em nota zero de saúde mental. Essa equação não fecha — por mais auditorias que se façam. Nem quantos bônus se paguem.
Transformar isso em pauta não é corporativismo. É estratégia. Cuidar do servidor não é benefício — é investimento direto na entrega pública, tão direto quanto qualquer obra de infraestrutura, com a diferença de que essa infraestrutura respira, adoece e se afasta quando ignorada.
Isso exige gestão: ambientes minimamente saudáveis, metas que considerem a realidade operacional, escuta ativa de quem está na ponta. Assim como o servidor precisa ouvir o cidadão, o Estado precisa ouvir o servidor. A ponte não se sustenta sem base.
Exige também coragem para abandonar a narrativa simplista do servidor como problema. Em muitos casos, ele é o último ponto de contenção antes do colapso do serviço. Foi assim na pandemia, quando a linha de frente sustentou um sistema à beira do limite com o próprio corpo. É assim todos os dias, em silêncio, longe das manchetes.
A escolha é simples — embora raramente tratada como tal. Ou se trata o servidor como peça descartável, e o Estado segue sendo percebido como muro: frio, distante, ineficiente. Ou se reconhece o óbvio.
Quem sustenta a ponte precisa estar de pé.
Eduardo Furtado é servidor público da área fiscal do município do Rio de Janeiro
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