Lucimar Soares Motta Dreyer divulgação
Publicado 30/03/2026 00:00
Todos os anos, após a divulgação dos resultados do Enem um ritual ocupa as páginas dos jornais: rankings anunciam “as melhores escolas do Brasil”. Egressa de universidade pública e professora do Ensino Médio à época da implementação do Enem, atuo há mais de uma década como gestora em escolas privadas no Rio de Janeiro. Preocupa-me constatar que um ranking pese mais do que um projeto pedagógico.
Publicidade
Não se trata de negar a importância do Enem ou do acesso ao Ensino Superior. Em um país desigual como o nosso, ampliar oportunidades precisa ser o objetivo central da Educação Básica. A inquietação reside no que raramente se discute: rankings não são neutros. Produzem efeitos, orientam decisões e moldam práticas escolares.
À primeira vista, os números parecem retratos objetivos da qualidade educacional. Mas revelam distorções. O Enem, importante instrumento diagnóstico, ao ser convertido em ranking, tornou-se ativo de marketing. E isso tem consequências.
A primeira é a inclusão. O exame não é verdadeiramente inclusivo. O formato padronizado e conteudista contrasta com a complexidade de escolarizar estudantes com necessidades educacionais específicas. As políticas de atendimento especializado adotadas pelo Inep não são suficientes para garantir avaliação equânime das diferentes trajetórias e dos formatos de aprendizagem.
Escolas comprometidas com a inclusão enfrentam um desafio invisível: seus resultados médios tendem a refletir a diversidade de seus alunos. Já instituições que buscam preservar posições adotam, muitas vezes, estratégias de filtragem. O ranking passa a premiar a capacidade de seleção e não a qualidade do projeto educativo.
Há práticas ainda mais sofisticadas, como a fragmentação institucional. Criam-se CNPJs distintos para concentrar alunos de alto desempenho em unidades “de excelência”, enquanto os demais permanecem em unidades paralelas. O dado divulgado é formalmente correto, mas pedagogicamente enganoso, pois a “melhor escola” é, muitas vezes, o recorte mais performático de um sistema desigual.
Esse modelo reforça um Ensino Médio piramidal, no qual poucos chegam ao topo. A excelência é confundida com exclusividade. A pergunta que raramente se faz é: excelência para quem?
A decisão de o Inep possibilitar a inscrição no Sisu para alunos que realizaram o Enem nos últimos três anos amplia distorções. A medida estimula a recaptura de alunos que já obtiveram bom desempenho (muitos dos quais já estão nas universidades) para elevar médias institucionais. O efeito colateral é a inflação das notas de corte e a maior dificuldade para quem disputa, de fato, uma vaga.
Soma-se a isso a insegurança gerada por controvérsias recentes envolvendo critérios de correção da redação. E quando regras parecem instáveis, o mérito perde sua solidez.
Talvez o maior desafio seja recolocar a pergunta central: que educação queremos promover? Uma que seleciona resultados ou uma que sustenta trajetórias? Uma que se organiza para figurar nas listas ou uma que se compromete com o direito de aprender?
Lucimar Soares Motta Dreyer é gestora do grupo Sinergia Educação, psicopedagoga e doutora em biofísica
Leia mais