Publicado 31/03/2026 00:00
Colapsou. Puxado por Uta Frith, uma psiquiatra alemã conhecida por ser uma das pesquisadoras pioneiras sobre o autismo enquanto condição biológica, ao invés da antiga noção de que o transtorno era causado pela família, o mundo ocidental repensa o espectro do autismo, sobretudo diante do Abril Azul. A edificação do conceito de espectro foi corroborada por diferentes ciências - psiquiatria, psicologia, neurologia, dentre outras, que buscavam uma solução diagnóstica ao que parecia ser uma “doença” de origem familiar. O autismo sempre viveu entre as margens. Nunca foi um diagnóstico preciso e com unanimidade. De um lado tentaram colocar sinais e sintomas como parte de uma doença mental e do outro alguns a condicionavam como desdobramentos de condições familiares.
PublicidadePor fim, genética, ambiente e neurocondições passaram a dianteira. Mesmo assim, não tornou-se consenso. O autismo era/é doença? A quem pertence seu diagnóstico e/ou tratamento e/ou cura? O espectro foi uma tentativa de alargar ações diagnóstica e com isso amenizar sofrimentos psíquicos.
Não deu certo. Governos dizem não suportar cobranças. Planos de saúde se declaram asfixiados. Famílias pedem socorro e as classes terapêuticas se perdem em um mar de possibilidades, quase sempre com pequenos resultados ou nenhum. Enquanto isso, o comércio em torno do autismo é, sem dúvida, o único segmento que nada tem a reclamar. De mesa pra autista, passando por perfumes, canecas, camisetas e fitas pra pendurar no pescoço a indústria tem de tudo, e sem qualquer controle e regulamentação. Nas redes sociais é possível encontrar tratamentos e curas até usando fezes. O diagnóstico do autismo não tem, ainda, um biomarcador e, por isso, fica restrito a uma avaliação clínica, que pode ser feitas por muitos e acertada por poucos. Há adultos e crianças sendo diagnosticadas com autismo quando são casos de esquizofrenias. E outra verdade tem surgido – a glamorização em torno do autismo que nunca atingiu nenhuma outra condição de saúde mental.
Síndrome de down, deficiência intelectual, esquizofrenia, sociopatia/psicopatia dentre outras. Não tem comércio, pouco se fala em redes sociais e leis de proteção são quase mínimas. Em contrapartida há tantas leis para TEAs que tornou-se impossível considerá-las no todo vigente. O autismo precisa ser revisto. Suas fronteiras dissolveram-se em um misto de excesso de informações falsas, influenceres desqualificados, desesperos familiares, promessas milagrosas e políticos inescrupulosos. É hora de rever tudo que aí está.
Geraldo Peçanha é pedagogo, pós-graduado em TEA e psicanalista
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