Publicado 03/04/2026 00:00
O mar sempre foi a alma de Saquarema. No entanto, durante muito tempo, essa imensidão azul foi tratada apenas como cenário, e não como o patrimônio vivo e sensível que realmente é. Ao assumir a gestão, o grande desafio que se impunha era: como conciliar o crescimento do turismo e a força do esporte com a preservação ambiental e a conscientização das próximas gerações? Não bastava ser a "Capital Nacional do Surf"; era preciso ser a capital da sustentabilidade municipal.
PublicidadeA resposta veio através de ações integradas que uniram esporte, ciência e educação. Em Saquarema, implementamos o letramento oceânico como uma política transversal. O reconhecimento máximo desse esforço chegou com o selo Bandeira Azul, que não é apenas um troféu, mas um compromisso rigoroso com a qualidade serviço público ambiental. Somente em 2025, quase 2.000 pessoas foram envolvidas diretamente nas ações do programa.
Nosso Centro de Treinamento (CT) de Surf não foi pensado apenas para formar atletas, mas para moldar cidadãos conscientes. Desde 2022, o projeto Surfista Guardião da Praia já atendeu aproximadamente 400 alunos na turma de iniciação, ensinando que o verdadeiro campeão é aquele que cuida do seu ecossistema. Além disso, o projeto Ciência Cidadã levou cerca de 794 alunos das escolas municipais para a prática científica na areia, transformando a praia em uma sala de aula viva.
Essas iniciativas mostram que a educação de qualidade vai muito além dos muros da escola. Realizamos oficinas de workshop de pranchinhas com reaproveitamento de materiais, palestras com organizações como Ecolocal e Blue Birds, e eventos globais como o Clean Up The World Day. No Dia do Meio Ambiente e do Oceano, impactamos mais de 500 pessoas da sociedade civil, provando que a participação social é a chave para a mudança de paradigma.
Além disso, a assinamos um projeto em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado, a UFRJ e a Petrobras para implementar o letramento oceânico em nossa rede de ensino – que agora é uma determinação do Ministério da Ciência e tecnologia - e criar o primeiro Centro de Cultura Oceânica do país.
Olhando para fora, vemos que esse modelo de gestão baseada em evidências e engajamento é o que define as cidades do futuro. Florianópolis, por exemplo, também avançou significativamente ao integrar escolas municipais em programas de preservação de ecossistemas costeiros, reduzindo o descarte irregular de resíduos em 15% em áreas monitoradas (Fonte: Relatório de Sustentabilidade Municipal 2024). Em Portugal, a cidade de Cascais tornou-se referência mundial ao utilizar a economia azul para financiar projetos de infraestrutura escolar sustentável, criando um ciclo onde o recurso do mar protege o futuro das crianças.
Minha trajetória como prefeita me ensinou que a gestão pública eficiente exige sensibilidade para entender que o meio ambiente e o desenvolvimento econômico caminham juntos. O uso inteligente dos recursos, inclusive dos royalties do petróleo, deve ser direcionado para projetos que garantam a longevidade dos nossos recursos naturais. Como uma das mulheres na política que acredita no protagonismo feminino para cuidar do coletivo, entendo que zelar pelo oceano é zelar pela nossa própria sobrevivência.
A transformação social que iniciamos em Saquarema, conectando o esporte à preservação e a educação à ciência, é um modelo que desejo levar adiante. Precisamos de políticas públicas que não apenas olhem para o agora, mas que preparem o terreno — e o mar — para os que virão. O mar nos deu tudo; agora, através de uma governança e sustentabilidade reais, é nossa vez de garantir que ele continue sendo fonte de vida, esporte e orgulho.
Gostou de conhecer essas iniciativas? Se você conhece algum projeto que está transformando a realidade dos mares em sua cidade, entre em contato comigo pelo meu blog (https://manoelaperes.com.br) ou pelas redes sociais. Beijo e até a próxima coluna!
Manoela Peres é ex-prefeita e ex-Secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema
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