Publicado 09/04/2026 00:00
Quando eu participava de um congresso educacional, ouvi o relato de um professor da educação básica, que ficara cego aos 30 anos de idade. Ele dizia que fora extremamente difícil a adaptação à nova condição. Evidentemente, continuar trabalhando, lidar com as demandas da vida e tudo mais, se tornara extremamente complexo. Porém, ele afirmava que conseguiu, depois de muito esforço pessoal, continuar vivendo com qualidade, tendo uma vida profissional produtiva.
PublicidadeRessaltava que as novas tecnologias digitais permitiram, por exemplo, receber mensagens e fotos nas redes sociais, participar de grupos de WhatsApp e ter acesso a artigos acadêmicos na web. Seu grande problema, no entanto, era a acessibilidade: a imperiosa necessidade de ter autonomia para ir e vir. Sair de casa, ir para o trabalho e voltar.
O relato desse professor mostrou mais uma vez a importância do uso das tecnologias digitais assistivas para dar qualidade e autonomia às pessoas com deficiência. Mais recentemente, esses recursos tecnológicos foram amplamente difundidos e amplificados com a inteligência artificial. A IA tem contribuído significativamente na promoção da acessibilidade escolar. Seus recursos são muitos e é possível criar ferramentas que ajudem alunos com deficiência a aprender de forma mais eficaz. A tecnologia pode adaptar o conteúdo às necessidades individuais. Personalizar a aprendizagem. Isso pode incluir recursos como leitores de tela, tradutores de linguagem de sinais e muito mais. A IA dinamiza a comunicação entre professores e alunos com deficiência ou neurodivergentes. De fato, as tecnologias digitais se tornaram um processo irreversível na sociedade. Elas podem auxiliar na criação de ambientes de aprendizado mais equitativos.
Por outro lado, essas novas condições trazem desafios constantes para as instituições de ensino e para os educadores. As tecnologias, que representam a inclusão de muitos, podem representar também a exclusão daqueles que não têm acesso a elas.
Por outro lado, essas novas condições trazem desafios constantes para as instituições de ensino e para os educadores. As tecnologias, que representam a inclusão de muitos, podem representar também a exclusão daqueles que não têm acesso a elas.
A inteligência artificial pode contribuir para a superação de muitas barreiras estruturais, físicas e sociais. Porém, não podemos considerá-la ferramenta exclusiva para mediação escolar ou social. A verdadeira inclusão não reside apenas na capacidade de a tecnologia remover empecilhos de qualquer ordem, democratizando o acesso ao saber, mas principalmente na nossa disposição de estabelecer práticas humanizadoras de aprendizagem.
Decerto, o sucesso dessa cooperação depende da intencionalidade humana. A IA deve potencializar a autonomia do estudante e não substituir o professor. Ao integrarmos a tecnologia ao cotidiano da aprendizagem de forma ética e responsável, criamos na escola um ambiente onde a diversidade e a individualidade são reconhecidas.
Eugênio Cunha é doutor em Educação e pedagogo da Fundação Municipal de Educação de Niterói
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