Manoel Valente Figueiredo NetoDivulgação
Publicado 10/04/2026 00:00
Há momentos em que a vida não se rompe, apenas deixa de obedecer ao padrão que nos sustentava. E então interpretamos como algo que deu errado aquilo que talvez seja apenas uma reorganização em curso.
Confundimos estabilidade com verdade. Como se aquilo que se repete fosse, por isso, mais verdadeiro. Mas a estabilidade, muitas vezes, é apenas um hábito bem ensaiado, uma forma que se manteve não porque expresse o que somos, mas porque não conseguimos nos desprender dela.
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Quando algo se rompe, seja uma rotina, uma relação ou uma ideia de si, não é só o evento que assusta. É também o fato de que não sabemos como dizer o que está acontecendo.
Entre a ruptura e o sentido, há um intervalo, que não tem linguagem suficiente. É ali que o desconforto cresce, não por estar tudo perdido, mas porque não há ainda contorno, nem palavra, que nomeie o que se vive. Algo em nós já deixou de ser, mas ainda não se tornou outra coisa.
Talvez o erro esteja na pressa de nomear. Ao chamarmos de perda aquilo que está em transformação, antecipamos um significado para aliviar o vazio. Mas, ao fazer isso, podemos interromper o próprio processo de compreensão.
Nem toda quebra é ausência. Algumas são desmontagens necessárias. A mente, diante do vazio narrativo, pode tentar preencher com ansiedade, com sensação de queda, com a urgência de recompor um sentido rápido demais. Como se o que ainda não encontra linguagem precisasse, a qualquer custo, ser estabilizado.
Mas há processos que não aceitam aceleração. Eles exigem permanência no indeterminado, uma forma mais exigente de presença. Não a que domina, mas a que suporta. Forçar um desfecho, nesse momento, não acelera, mas deforma o que pede tempo para se tornar claro.
Se olharmos com mais cuidado, veremos que a mudança raramente começa pela construção. Ela se inicia por um enfraquecimento. O que antes era sólido deixa de responder. Um caminho familiar perde aderência. Uma certeza começa a falhar. E isso não é erro. É a vida abrindo espaço onde antes havia apenas repetição.
O equívoco está em acreditar que só podemos avançar quando a nova forma estiver pronta, quando já estivermos inteiros, coerentes, resolvidos. Como se a existência exigisse clareza prévia. Mas a vida não espera por entendimento. Ela acontece antes, durante e apesar da compreensão.
Há uma dimensão mais sutil da experiência: agir mesmo sem estar totalmente pronto, escolher mesmo sem garantia, continuar mesmo sem clareza total. Não como imprudência, mas como reconhecimento de que o gesto também faz surgir sentido. E é no mundo que ele se forma.
A ideia de que crescer é adicionar mais força, mais clareza, mais controle nos afasta desse movimento. Porque há crescimentos que começam pelo contrário: pela perda de sustentação do que já não nos corresponde. E é justamente nesse ponto que se torna possível uma expressão mais profunda de compromisso consigo mesmo, não aquela que se exerce quando tudo está claro, mas a que se assume quando ainda não há linguagem suficiente.
Por isso certos momentos parecem tão difíceis de atravessar. Não por estarem errados, mas porque ainda não se integraram à narrativa que organiza quem somos. O que se vive fica suspenso, sem passado que o explique, sem futuro que o justifique. Resta, então, sustentar o que se impõe no presente.
E é nessa sustentação que se revela uma exigência mais silenciosa que nasce no interior da pessoa: a de não adiar a própria existência. Porque esperar estar inteiro pode ser uma fuga diante daquilo que nos exige posição, um adiamento da própria capacidade de existir.
A autenticidade deixa de ser um ideal e passa a ser um exercício. Não depende da eliminação da dor, nem da construção de um eu plenamente resolvido. Ela se realiza quando, mesmo atravessado por dúvidas, limites e zonas ainda opacas, o sujeito continua a se posicionar no mundo.
Agir na imperfeição. Assumir escolhas ainda provisórias. Dizer-se sem a garantia de completude. Não como afirmação de segurança, mas como recusa em suspender a vida até que tudo esteja resolvido.
Porque, muitas vezes, é no próprio movimento, ao escolher, ao se posicionar, ao dizer ainda sem plena clareza, que algo começa a se reorganizar. A clareza não antecede o gesto. Ela se forma a partir dele.
Isso exige um tipo raro de permanência: habitar o indeterminado sem transformá-lo em paralisia.
Permanecer no intervalo sem preenchê-lo apressadamente com explicações frágeis. E atravessar esses momentos é aprender a distinguir o que realmente se perdeu daquilo que apenas deixou de se repetir.
Com o tempo, algo começa a se reorganizar. Não o tempo cronológico, mas o tempo vivido, aquele em que a experiência encontra, enfim, algum modo de dizer-se. Não como retorno ao que era, mas como surgimento de outra coerência: menos rígida, menos dependente de repetição, mais aberta ao que ainda não conseguimos sustentar.
Trata-se de ressignificar o modo de estar. Deixar de exigir que o mundo confirme nossas antigas estruturas e começar a perceber o que já nos compõe.
A pergunta muda. Não mais “por que isso está dando errado?”, mas “o que em mim já não pode continuar do mesmo modo?”. E, junto dela, outra, mais profunda: “o que em mim já começou a mudar, mesmo antes de eu saber dizer?”.
O que nos sustenta deixa de ser oposição ao movimento. Torna-se sua condição. É isso que permite que a liberdade não se desfaça no instante, mas se prolongue na vida. Porque, no fundo, ser livre talvez não seja apenas ir em qualquer direção, mas conseguir permanecer onde, em algum momento, se decidiu estar.
Manoel Valente Figueiredo Neto é jornalista e jurista
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