Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de PsiquiatriaDivulgação
Publicado 22/04/2026 00:00
No Dia Nacional de Enfrentamento à Psicofobia, especialista alerta que estigma, julgamento e desinformação ainda afastam pessoas do tratamento e agravam doenças que poderiam ser acompanhadas com dignidade.
Publicidade
Há dores que não aparecem em exames, não deixam marcas visíveis e, por isso, muitas vezes são desacreditadas. A dor de quem enfrenta doenças ou transtornos mentais é uma delas. Silenciosa para quem vê de fora, mas intensa e constante para quem a vive por dentro.
No último 12 de abril, o Brasil marcou o Dia Nacional de Enfrentamento à Psicofobia. Mais do que uma data no calendário, é um convite ao incômodo, necessário e urgente. Porque falar de psicofobia é reconhecer quantas vezes as deficiências e doenças mentais ainda são ignoradas, ridicularizadas ou tratadas como fraqueza.
A psicofobia não se manifesta apenas em atitudes extremas. Ela está nas frases aparentemente banais do cotidiano: “isso é falta de vontade”, “é só pensar positivo”, “tem gente com problemas maiores”. Para quem já está fragilizado, essas palavras não são neutras, elas ferem, afastam e silenciam.
Viver com uma enfermidade psíquica já é, por si só, um desafio diário. Mas o peso do preconceito torna esse caminho ainda mais solitário. O medo do julgamento impede pedidos de ajuda. A vergonha cala histórias. O estigma cria uma barreira invisível entre o sofrimento e o cuidado.
E, assim, muitos seguem em silêncio:
Silêncio no trabalho, para não parecer incapaz.
Silêncio em casa, para não preocupar.
Silêncio consigo mesmo, tentando negar aquilo que dói.
Esse isolamento tem consequências concretas. A psicofobia afasta pessoas do tratamento, interrompe processos de cuidado e agrava quadros que poderiam ser acompanhados com dignidade. Em muitos casos, o sofrimento se intensifica e pode levar ao desespero profundo, inclusive ao suicídio.
Por trás de cada diagnóstico, existe uma pessoa. Alguém que sente, que tenta, que resiste. Alguém que precisa ser visto para além do rótulo.
A escolha do 12 de abril não é por acaso. A data homenageia Chico Anysio, que ajudou a dar nome a esse tipo de preconceito. Nomear é essencial: aquilo que não é reconhecido não é enfrentado.
Em um de seus últimos registros, ele chamou atenção para a necessidade de olhar para a saúde mental com mais humanidade, um chamado que hoje é ainda mais urgente.
Passado o 12 de abril, fica a pergunta: o que, de fato, muda?
Talvez o maior desafio seja aprender a escutar sem julgar, acolher sem minimizar e respeitar sem simplificar aquilo que é complexo. Nem toda dor pode ser explicada em poucas palavras, mas toda dor pode, e deve, ser acolhida.
Mais do que lembrar da data, é preciso transformar essa consciência em prática cotidiana. Porque, para quem vive essa realidade, ser compreendido não é detalhe: é, muitas vezes, o primeiro passo para continuar.
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria
Leia mais