Publicado 24/04/2026 00:00
Quase um em cada cinco adolescentes brasileiros afirma que a vida não vale a pena. Mais de um quarto sente que ninguém se importa com eles. E cerca de 30% convivem com tristeza frequente ou permanente. Os números da mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar não são apenas estatísticas. Eles são um retrato doloroso de uma geração que cresce entre a solidão, a pressão estética, a dificuldade de pertencimento e a sensação de desamparo.
PublicidadeMas talvez a pergunta mais importante não seja apenas porque os adolescentes estão infelizes, mas sim como estamos formando emocionalmente nossas crianças para chegar à adolescência? A tristeza dos jovens pode ter raízes mais profundas do que imaginamos: ela começa na qualidade das relações construídas na infância. A crise que explode aos 13, 14 ou 15 anos muitas vezes começou nos primeiros anos de vida, quando o cérebro humano está construindo os alicerces da confiança, da autoestima e da capacidade de criar vínculos.
A ciência do desenvolvimento infantil mostra que, na primeira infância, o cérebro se organiza a partir das interações com adultos emocionalmente disponíveis. Cada resposta a um gesto, cada olhar acolhedor, cada palavra que nomeia o mundo ajuda a criança a construir algo decisivo: a convicção de que vale a pena se comunicar, sentir, explorar e confiar. Estamos, aqui, falando de “presença”. Quando a criança tenta compartilhar uma descoberta e encontra um adulto distraído pelo celular ou exausto pelo excesso de trabalho, o que se rompe não é apenas o diálogo daquele instante. O que se fragiliza é a experiência subjetiva da criança, de ser vista, percebida e reconhecida.
Não se trata de culpabilizar pais, mães ou professores. Ao contrário. O drama contemporâneo é justamente o adoecimento dos próprios adultos. Famílias e educadores vivem pressionados por jornadas exaustivas, sobrecarga mental, insegurança financeira e pela falsa anestesia oferecida pelas telas. O resultado é uma cena cada vez mais comum e silenciosamente devastadora: adultos fisicamente presentes, mas afetivamente ausentes.
Estamos diante de uma adolescência que pede socorro não apenas por meio das palavras, mas por sintomas: tristeza, ansiedade, isolamento, autoflagelação. Antes de perguntar o que está acontecendo com os adolescentes, talvez precisemos perguntar o que aconteceu com os adultos. Nossa ausência afetiva na infância costuma cobrar juros altos na adolescência.
Júlio Furtado é orientador educacional e escritor
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