Publicado 28/04/2026 00:00
No calendário brasileiro, o 23 de abril reúne duas devoções que, embora oriundas de tradições distintas, se entrelaçam de forma profunda na experiência cotidiana da fé. De um lado, São Jorge, celebrado como símbolo de coragem, proteção e vitória diante das adversidades. De outro, Ogum, senhor dos caminhos, da guerra e da tecnologia, invocado por aqueles que buscam força, direção e justiça para enfrentar os desafios da vida.
PublicidadeMais do que uma coincidência de datas, essa convergência revela camadas densas da formação cultural brasileira. Frequentemente explicada pelo conceito de sincretismo religioso, a associação entre São Jorge e Ogum ultrapassa a ideia de simples fusão simbólica. Trata-se de um processo histórico marcado por resistência, reinvenção e permanência. Populações negras, submetidas à violência da escravidão e a políticas sistemáticas de apagamento cultural, criaram estratégias para manter vivas suas crenças, mesmo sob vigilância e repressão.
Durante séculos, as religiões de matriz africana foram perseguidas e estigmatizadas, o que obrigou seus praticantes a desenvolver formas sofisticadas de preservação espiritual. Nesse contexto, a aproximação entre santos católicos e orixás não foi apenas uma adaptação circunstancial, mas um gesto político e cultural. Sob a aparência de uma devoção permitida, mantiveram-se rituais, cosmologias e vínculos ancestrais que estruturam identidades até hoje.
Essa interpretação dialoga diretamente com o pensamento de Lélia Gonzalez, que nos convida a compreender o Brasil a partir de suas matrizes africanas e indígenas. Ao evidenciar a centralidade da cultura negra na construção da identidade nacional, a autora nos ajuda a perceber que práticas como a devoção compartilhada entre São Jorge e Ogum não são marginais, mas constitutivas do que somos enquanto sociedade.
É importante ressaltar, ainda, que o reconhecimento oficial do 23 de abril como feriado em diversas localidades brasileiras nasce também desse encontro simbólico. No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, a proposta partiu de um deputado umbandista, o que explicita, no campo institucional, a presença e a legitimidade das religiões de matriz africana. Esse fato exemplifica de maneira concreta o diálogo inter-religioso que marca a data, evidenciando como diferentes tradições podem não apenas coexistir, mas também construir, juntas, marcos de reconhecimento público e político.
Nessa celebração, essa herança se manifesta de maneira vibrante e plural. Fiéis de diferentes origens e crenças recorrem à figura do guerreiro como símbolo de proteção, coragem e abertura de caminhos. Seja diante de um altar católico, em uma procissão, ou no espaço sagrado de um terreiro, o gesto de fé carrega significados que atravessam fronteiras institucionais e revelam uma espiritualidade marcada pela convivência, pela troca e pelo reconhecimento do outro.
Mais do que uma sobreposição de crenças, o que se observa é uma expressão legítima da diversidade brasileira. Uma convivência que não apaga diferenças, mas constrói sentidos a partir delas. Nesse encontro entre São Jorge e Ogum estão inscritas histórias de dor, mas também de invenção, sabedoria e continuidade.
Portanto, mais do que um ato religioso, a data é um convite à reflexão. Em um país ainda atravessado pela intolerância religiosa, o 23 de abril nos lembra da urgência de reconhecer, respeitar e valorizar as múltiplas formas de fé que compõem o Brasil. É um chamado à construção de uma sociedade onde todas as espiritualidades possam existir com liberdade, dignidade e pertencimento, honrando aqueles que resistiram para que essas tradições chegassem até aqui.
Ivanir dos Santos é Babalawô, professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada pela UFRJ
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