Marcelo KnopfelmacherDivulgação
Publicado 10/05/2026 00:00
A comunidade judaica brasileira precisa romper com a postura defensiva que há anos limita sua voz no espaço público.
Publicidade
Não podemos mais aceitar uma representação que se define apenas pela reação ao antissemitismo.
Essa luta continua sendo essencial — mas não pode ser a única.
Uma comunidade com a nossa história, densidade intelectual e capacidade institucional não pode se contentar em ocupar um lugar passivo.
É hora de afirmar uma agenda própria, clara e inegociável.
No centro dessa agenda está a relação com o Estado de Israel.
Não há ambiguidade possível: Israel é parte constitutiva da identidade judaica contemporânea.
Qualquer tentativa de relativizar esse vínculo, seja por conveniência política ou receio de desgaste, deve ser rejeitada com firmeza.
A ausência de normalidade diplomática plena entre Brasil e Israel é inaceitável — e o silêncio diante disso é ainda mais grave.
É preciso exigir, de forma clara, pública e permanente, a recomposição imediata das embaixadas: do Brasil em Israel e de Israel no Brasil. Não como gesto simbólico, mas como afirmação concreta de respeito institucional.
Essa posição não está condicionada à orientação ideológica de governos. Não cabe à comunidade judaica ajustar seus princípios ao sabor de ciclos políticos.
Da mesma forma que Israel não se calou nenhum dia sequer até ter todos os reféns devolvidos, a representação judaica no Brasil deve fazer o mesmo quanto à volta dos embaixadores.
Isto porque apoiar Israel incondicionalmente não é uma escolha circunstancial — é uma obrigação histórica e identitária.
Israel é uma democracia vibrante, com seus próprios mecanismos de debate e decisão. A representação da diáspora apoia, não tutela e não se imiscui na política interna daquele país.
Mas uma representação forte não se constrói apenas no plano das relações internacionais.
Internamente, é preciso enfrentar com honestidade uma realidade muitas vezes negligenciada: há muita vulnerabilidade dentro da própria comunidade.
Há famílias que precisam de apoio, idosos que demandam cuidado, jovens que carecem de oportunidades.
Ignorar isso é incompatível com qualquer pretensão de liderança legítima.
Uma nova representação deve assumir como prioridade o fortalecimento de estruturas que garantam acesso efetivo à saúde, educação, segurança alimentar e amparo na velhice. Não como caridade pontual, mas como política comunitária estruturada.
Tzedaká não é um gesto opcional; é um dever. E solidariedade não é discurso — é prática organizada, mensurável e contínua.
Essa transformação exige também um princípio básico que, até aqui, tem sido frequentemente negligenciado: legitimidade.
Não há representação verdadeira sem mandato.
As lideranças comunitárias precisam ser escolhidas por meio de processos eleitorais democráticos que assegurem transparência, participação ampla e real possibilidade de alternância de poder.
Estruturas fechadas, autorreferentes e pouco permeáveis ao escrutínio enfraquecem a confiança e limitam a capacidade de renovação.
Uma comunidade forte exige lideranças que respondam aos seus membros — e não o contrário.
Essa transformação exige também coragem para ser inclusivo de verdade, com o olhar voltado aos mais necessitados e não como trampolim para projetos pessoais.
Por outro lado, a comunidade judaica brasileira não é homogênea — e não deve ser tratada como tal.
A pluralidade de origens, condições sociais e econômicas, visões e posicionamentos intelectuais precisam ser incorporadas; e não administradas à distância.
Representar é incluir, não selecionar.
Há ainda um ponto que revela, de forma silenciosa, um problema mais profundo: a hesitação em afirmar a própria identidade.
Em diversas instituições, observa-se uma tendência sutil de diluir ou suavizar referências judaicas.
Isso é um erro.
Instituições como o Hospital Israelita e a Faculdade de Medicina Israelita são referências de excelência justamente porque carregam uma tradição clara de valores.
O termo “israelita” não é um detalhe — é uma afirmação. Deve ser preservado, destacado e assumido com orgulho, como ocorre em comunidades judaicas ao redor do mundo.
Esconder essa identidade não amplia respeito; ao contrário, enfraquece a coerência.
O Brasil precisa de uma comunidade judaica bem representada, democraticamente eleita e com lideranças sensíveis ao que está acontecendo na ponta.
Uma comunidade que não peça licença para existir no debate público, que não ajuste suas convicções por conveniência e que compreenda o seu papel como protagonista da sua própria história.
Essa não é uma proposta de redefinição do modelo de representação por capricho.
É uma necessidade iminente porque ser judeu é motivo de orgulho; e ser judeu plenamente é ato de respeito à nossa trajetória multimilenar.
Marcelo Knopfelmacher é judeu, ativista e empresário baseado em Londres, com atuação no Brasil e no Oriente Médio
Leia mais