Eduardo FurtadoDivulgação
Publicado 12/05/2026 00:00
Existe uma ideia silenciosa, mas enraizada, dentro e fora do serviço público: o adoecimento do servidor é sempre um problema individual. Falta de equilíbrio, baixa resiliência, incapacidade de lidar com pressão. A solução proposta quase sempre segue a mesma lógica: o indivíduo precisa aprender a suportar melhor o ambiente.
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Mas e se parte do problema estiver justamente no ambiente?
Essa é uma discussão que o serviço público brasileiro ainda evita fazer com honestidade. Porque ela obriga a reconhecer uma verdade desconfortável: existem estruturas que produzem desgaste de forma contínua. E desgaste contínuo, quando normalizado, vira adoecimento.
O problema raramente é apenas "muito trabalho". O que consome energia não é a quantidade da tarefa — é a forma como ela acontece. A fricção constante. O retrabalho interminável. A pressão por resultado sem controle sobre as condições para entregá-lo. A exposição contínua ao sofrimento e ao conflito — marca diária de quem atua na saúde, na educação ou na segurança pública. A insegurança jurídica. A política pública mal dimensionada. A responsabilização difusa. A cobrança simultânea por velocidade e perfeição.
O desgaste institucional não surge de episódios extremos. Ele surge da repetição diária de pequenas distorções que, isoladamente, parecem suportáveis, mas acumuladas corroem iniciativa, energia e sentido profissional. Organizações adaptadas ao desgaste passam a tratar esses sintomas como parte natural da rotina. Não são.
O sistema, porém, costuma ler esses sinais como falhas individuais. O servidor perde motivação? Falta engajamento. Evita exposição? Falta proatividade. A equipe recua? Resistência à mudança. Pouco se discute o ambiente que produziu esses comportamentos.
E ambientes produzem comportamento. Sempre. Em qualquer direção.
Quando o erro é punido de forma desproporcional, as pessoas se tornam defensivas. Quando a autonomia desaparece, surge o distanciamento emocional. Quando o esforço não altera o resultado, instala-se o cinismo operacional. O servidor deixa de tentar melhorar o sistema e passa apenas a sobreviver dentro dele.
Aqui reside um agravante específico do serviço público: quando o ambiente institucional se deteriora, o servidor frequentemente permanece submetido, por anos — às vezes décadas — à mesma lógica organizacional que o desgasta, absorvendo seus impactos sobre a saúde, o desempenho e a identidade profissional.
Reconhecer isso não significa negar responsabilidade individual nem transformar o servidor em vítima permanente. Significa admitir que pessoas respondem aos ambientes em que trabalham — e que nenhum debate sério sobre eficiência pública pode ignorar o custo humano do funcionamento institucional.
Existe uma conta invisível sendo paga diariamente dentro da máquina pública. Ela não aparece nos relatórios fiscais. Aparece nos afastamentos, na perda de energia profissional, na cultura de autoproteção e na redução silenciosa da capacidade operacional do Estado. Uma conta paga com o corpo, com a motivação e com anos de vida profissional — e que o Estado, silenciosamente, deixa ser paga.
O servidor não adoece sozinho.
Eduardo Furtado é servidor público da área fiscal do município do Rio de Janeiro
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