Publicado 24/05/2026 00:02
Acordei com pensamentos que passo a explicar. Estaria Verônica se vingando de mim? Há vinganças do lado de lá?
Verônica faleceu no ano passado. Meses antes a visitei. Namoramos nas nossas juventudes. Nos amamos. E depois nos casamos com pessoas diferentes. Fui eu quem disse do fim. Naqueles tempos, as famílias decidiam. E eu obedeci aos argumentos da minha mãe.
Não posso dizer que casei sem amor, mas era em Verônica que eu pensava, quando não era Verônica que comigo se deitava. Tivemos filhos. Depois de um tempo, nos separamos. Até hoje desfrutamos da amizade. Verônica também teve os seus filhos. Sua vida. E enviuvou.
O ano passado, quando visitei Verônica, ela disse que nunca deixou de me amar. Choramos juntos. O tempo é um arrumador de sentimentos. Ela disse e, depois, ficou se justificando com medo de que o marido do lado de lá ouvisse a confissão. Eu ri. Ela ficou séria. Disse que não gostava de brincar com o descanso dos mortos. Ela perguntou se eu amei a minha mulher. E se, depois da minha mulher, amei outras. Eu disse meia verdade. Que igual a ela, Verônica, nunca. O que eu deveria ter dito?
Pouco tempo depois que ela morreu, uma outra paixão veio incomodar a minha velhice. Ela, muito mais jovem. Nos conhecemos em uma viagem. Eu desacreditei quando ela veio estar comigo. O que eu poderia ter de especial? Não me sinto bonito. Não estou em boa forma física. Tenho, talvez, alguma curiosidade na vida dos outros que, talvez, faça com que os outros queiram estar próximos. E sou bom com as palavras. Mas ela me disse palavras de amor, mais de uma vez. E eu dizia que era apenas um lampejo de alegria em vidas tão diferentes.
De ditos em ditos, ficamos juntos dois anos. E, então, ela começou a ter dúvidas. Às vezes, vem. Às vezes, não vem. Um dia ela disse que gostaria de morar comigo. Eu disse que não. Eu não a apresentei para quase ninguém. Fiquei com medo de que pensassem que ela estava interessada em meu dinheiro. Fiquei com medo de que me achassem um velho bobo apaixonado. Pois bem, eu estava frio e ela esfriou. O esfriar dela me esquentou.
Eu já propus, depois dessas ausências, morarmos juntos. Ela não quer mais. Eu disse que gostaria de apresentá-la aos meus filhos. Ela disse que seria desnecessário. Mas antes queria. Um dia, minha filha nos viu juntos em uma livraria e eu disse que era uma amiga, que eu havia acabado de encontrar. Deixei ela sozinha e fui embora com minha filha. Foi nesse dia que ela decidiu pôr um fim em seus sonhos, me explicou depois.
Eu tenho vergonha de dizer o quanto estou sofrendo de paixão. Penso nela o dia inteiro. O tempo passou a ser contado em quando ela está e em quando eu a espero. Ela tem vindo à minha casa, eventualmente. Às vezes, fazemos amor. Quando ela quer. Eu quero sempre. Ela disse que encontrou um outro. Mas que gosta de estar comigo. Eu não conheço esse outro mas penso nele o dia inteiro.
Acordei pensando no que Verônica me disse, que eu a havia feito sofrer. Será que foi ela que mandou essa mulher? Será que ela está se vingando de mim? Mas tivemos uma conversa tão doce quando ela já se despedia da vida. Não pode ser. Ou pode?
Tenho chorado muito. Em ocasiões banais. Meu filho mais novo disse que eu estou muito emotivo. Mal sabe ele a razão. Para um único amigo a quem contei a história, ele disse que eu deveria agradecer. Que maravilha poder sentir o sentimento mais iluminador da vida. Que presente poder presentear a vida com as delícias do amor. O pensar. O tocar. O esperar. O sofrer, inclusive.
Não. Chega.
Nos pensamentos com os quais acordei, pedi algum alívio. Que ela decidisse desdizer o que me disse. Que me perdoasse pela frieza de antes. Que me acalmasse no entardecer da minha vida. Ou que Verônica, do lado de lá, me ajudasse a esquecê-la. Ou a convencê-la, quem sabe?!
Não estou em idade desses pensamentos. Meus amigos só conversam sobre vinho, remédio, alguma viagem, netos. Eu também tenho netos e gosto de todos eles. Mas meu pensamento já não é meu pensamento. É dela.
Verônica é nome de santa, até nisso pensei, dizendo que ela não iria querer se vingar. Perguntei sobre o assunto para um padre sem contar a história direito, claro, tenho vergonha. Eu disse que um sobrinho havia me perguntado sobre o poder dos mortos. E prossegui com minhas insanidades. O padre sorriu, explicou o que não me convenceu e eu continuei na dúvida.
Na dúvida, digo à Verônica que a amei mais do que a essa outra que me despedaça hoje. E, exatamente por isso, ela deveria me ajudar.
Acordei com esses pensamentos e passo o dia, os dias, com ele. Um dia passa, né?
Verônica faleceu no ano passado. Meses antes a visitei. Namoramos nas nossas juventudes. Nos amamos. E depois nos casamos com pessoas diferentes. Fui eu quem disse do fim. Naqueles tempos, as famílias decidiam. E eu obedeci aos argumentos da minha mãe.
Não posso dizer que casei sem amor, mas era em Verônica que eu pensava, quando não era Verônica que comigo se deitava. Tivemos filhos. Depois de um tempo, nos separamos. Até hoje desfrutamos da amizade. Verônica também teve os seus filhos. Sua vida. E enviuvou.
O ano passado, quando visitei Verônica, ela disse que nunca deixou de me amar. Choramos juntos. O tempo é um arrumador de sentimentos. Ela disse e, depois, ficou se justificando com medo de que o marido do lado de lá ouvisse a confissão. Eu ri. Ela ficou séria. Disse que não gostava de brincar com o descanso dos mortos. Ela perguntou se eu amei a minha mulher. E se, depois da minha mulher, amei outras. Eu disse meia verdade. Que igual a ela, Verônica, nunca. O que eu deveria ter dito?
Pouco tempo depois que ela morreu, uma outra paixão veio incomodar a minha velhice. Ela, muito mais jovem. Nos conhecemos em uma viagem. Eu desacreditei quando ela veio estar comigo. O que eu poderia ter de especial? Não me sinto bonito. Não estou em boa forma física. Tenho, talvez, alguma curiosidade na vida dos outros que, talvez, faça com que os outros queiram estar próximos. E sou bom com as palavras. Mas ela me disse palavras de amor, mais de uma vez. E eu dizia que era apenas um lampejo de alegria em vidas tão diferentes.
De ditos em ditos, ficamos juntos dois anos. E, então, ela começou a ter dúvidas. Às vezes, vem. Às vezes, não vem. Um dia ela disse que gostaria de morar comigo. Eu disse que não. Eu não a apresentei para quase ninguém. Fiquei com medo de que pensassem que ela estava interessada em meu dinheiro. Fiquei com medo de que me achassem um velho bobo apaixonado. Pois bem, eu estava frio e ela esfriou. O esfriar dela me esquentou.
Eu já propus, depois dessas ausências, morarmos juntos. Ela não quer mais. Eu disse que gostaria de apresentá-la aos meus filhos. Ela disse que seria desnecessário. Mas antes queria. Um dia, minha filha nos viu juntos em uma livraria e eu disse que era uma amiga, que eu havia acabado de encontrar. Deixei ela sozinha e fui embora com minha filha. Foi nesse dia que ela decidiu pôr um fim em seus sonhos, me explicou depois.
Eu tenho vergonha de dizer o quanto estou sofrendo de paixão. Penso nela o dia inteiro. O tempo passou a ser contado em quando ela está e em quando eu a espero. Ela tem vindo à minha casa, eventualmente. Às vezes, fazemos amor. Quando ela quer. Eu quero sempre. Ela disse que encontrou um outro. Mas que gosta de estar comigo. Eu não conheço esse outro mas penso nele o dia inteiro.
Acordei pensando no que Verônica me disse, que eu a havia feito sofrer. Será que foi ela que mandou essa mulher? Será que ela está se vingando de mim? Mas tivemos uma conversa tão doce quando ela já se despedia da vida. Não pode ser. Ou pode?
Tenho chorado muito. Em ocasiões banais. Meu filho mais novo disse que eu estou muito emotivo. Mal sabe ele a razão. Para um único amigo a quem contei a história, ele disse que eu deveria agradecer. Que maravilha poder sentir o sentimento mais iluminador da vida. Que presente poder presentear a vida com as delícias do amor. O pensar. O tocar. O esperar. O sofrer, inclusive.
Não. Chega.
Nos pensamentos com os quais acordei, pedi algum alívio. Que ela decidisse desdizer o que me disse. Que me perdoasse pela frieza de antes. Que me acalmasse no entardecer da minha vida. Ou que Verônica, do lado de lá, me ajudasse a esquecê-la. Ou a convencê-la, quem sabe?!
Não estou em idade desses pensamentos. Meus amigos só conversam sobre vinho, remédio, alguma viagem, netos. Eu também tenho netos e gosto de todos eles. Mas meu pensamento já não é meu pensamento. É dela.
Verônica é nome de santa, até nisso pensei, dizendo que ela não iria querer se vingar. Perguntei sobre o assunto para um padre sem contar a história direito, claro, tenho vergonha. Eu disse que um sobrinho havia me perguntado sobre o poder dos mortos. E prossegui com minhas insanidades. O padre sorriu, explicou o que não me convenceu e eu continuei na dúvida.
Na dúvida, digo à Verônica que a amei mais do que a essa outra que me despedaça hoje. E, exatamente por isso, ela deveria me ajudar.
Acordei com esses pensamentos e passo o dia, os dias, com ele. Um dia passa, né?
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