Publicado 24/05/2026 00:00
Há quem pense a vida como deslocamento: sair de um ponto e chegar a outro, cumprir etapas e vencer distâncias. Mas talvez a travessia não seja isso. Talvez não venha, sequer, com movimento no espaço.
PublicidadeHá travessias que acontecem sem que o corpo se desloque, e há deslocamentos que não atravessam nada. O que nos atravessa não é a estrada, é o intervalo.
Chamamos de consciência esse lugar instável onde algo em nós se percebe existindo. Mas o que é, de fato, essa consciência? Um reflexo da matéria? Um efeito colateral do cérebro? Ou uma abertura que não cabe inteiramente no mundo físico que a sustenta?
Se fosse apenas mecanismo, seria copiável. Se fosse apenas substância, seria transferível. Mas há algo que resiste a essas hipóteses: uma singularidade que não se reduz à função, nem se esgota na forma.
O que, afinal, torna alguém si mesmo ao longo do tempo? Não é a continuidade perfeita, porque ela não existe. Não é a coerência, porque somos mais fragmentos do que narrativa.
O que chamamos de identidade talvez seja apenas um arranjo provisório, uma certa estabilidade momentânea dentro de um campo de reorganizações contínuas. Não somos uma história linear. Somos uma insistência.
Vivemos, no entanto, como se fôssemos inteiros. Como se houvesse um fio invisível garantindo unidade entre o que fomos, o que somos e o que seremos. Essa ilusão de coerência nos conforta, mas também nos limita. Porque há, em nós, muito mais do que aquilo que conseguimos sustentar.
Cada escolha é um gesto de definição, mas também de abandono. Ao dizer sim, algo em nós se cala. Não como perda, mas como consequência inevitável.
Não vivemos várias vidas, mas carregamos possibilidades suficientes para isso. E a travessia é também esse movimento discreto de atualização e renúncia.
O que se torna evidente não é necessariamente o mais verdadeiro. É o que encontrou condições de emergir.
Ainda assim, o que não emerge não desaparece por completo. Permanece como resíduo, como inquietação, como espécie de presença sem forma. Em certos momentos, retorna, não apenas como lembrança, mas como sensação de incompletude. Como se algo em nós ainda pedisse passagem.
A travessia, antes de tudo, é isso: não interromper o que insiste. Compreender que insistir não é dominar, tampouco se entregar passivamente.
O humano não habita extremos. Vive na tensão entre controle e entrega, entre forma e abertura, entre o que decide e o que o atravessa sem permissão. Há uma medida silenciosa nesse equilíbrio instável: agir sem reduzir, sustentar sem aprisionar.
O silêncio, então, deixa de ser ausência. Torna-se condição. Não o silêncio da retirada, mas o da suspensão. Aquele que não explica, não resolve, não antecipa. Apenas sustenta.
É nele que o ainda sem nome encontra espaço para começar a existir. Porque atravessar não é apenas mover-se. É sustentar-se no tempo quando o tempo deixa de ser linear. Quando o passado já não explica e o futuro ainda não se apresenta.
Talvez seja por isso que sentimos nostalgia de coisas que nunca vivemos. Há, no humano, uma estranheza fundamental. Não estamos inteiramente no mundo físico, mas também não escapamos dele.
Vivemos entre a finitude do corpo e a abertura da consciência. Entre o que termina e o que insiste. Entre o chão e o céu.
A lua e as estrelas não nos pertencem, mas nos dizem algo. Como se reconhecêssemos nelas uma dimensão que nos excede, mas que, de algum modo, também nos compõe. Essa nostalgia não é lembrança do passado. É saudade do possível.
E talvez seja esse o mistério mais profundo: sentir falta de algo que nunca foi plenamente vivido.
Quando segurei meu filho recém-nascido nos braços, em um habitat que não era o meu, compreendi algo que nenhuma teoria alcança. Não era apenas um nascimento. Era uma travessia. Não dele, mas minha. Algo em mim reconhecia naquela vida uma dimensão que nunca havia experimentado e, ainda assim, parecia antigo. Como se o novo fosse, ao mesmo tempo, um retorno.
Toda travessia é, de algum modo, um regresso. Mas não regressamos ao que fomos. Regressamos diferentes ao que permanece. Há algo que atravessa as mudanças, não como identidade fixa, mas como continuidade sensível. Não um núcleo estável, mas uma espécie de fidelidade ao próprio movimento.
Talvez seja isso que sugere lembrar que não somos escravos do próprio passado. O que fomos nos constitui, mas não nos encerra. A liberdade não está fora daquilo que nos formou, está no modo como habitamos o que nos formou.
Quanto espaço de liberdade existe dentro daquilo que já me constitui? Essa não é uma pergunta para ser respondida. É uma pergunta para ser vivida.
Porque o ser humano não é um conjunto fechado, mas um campo de possibilidades. E cada escolha é uma atualização, um tipo de colapso existencial onde uma forma se realiza enquanto outras permanecem em silêncio. Mas esse silêncio não é vazio. É potência não exaurida.
Viver não exige que tudo em nós se torne forma. Talvez exija o contrário: aceitar que parte de nós permanecerá irrealizada. Não como fracasso, mas como delicadeza.
A travessia, então, deixa de ser chegada. Torna-se presença. Menos explicativa. Menos apressada. Mais disponível ao que ainda não se mostrou.
Não se trata de atravessar tudo. Nem de compreender tudo. Mas de não interromper, em si, aquilo que ainda tenta atravessar. Porque não somos apenas aquilo que conseguimos ser. Somos também aquilo que, silenciosamente, continua.
Manoel Valente Figueiredo Neto é jornalista e jurista
Leia mais
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.