Publicado 26/05/2026 00:00
O que aconteceu recentemente no antigo prédio do Instituto Médico Legal (IML), na Lapa, no Rio de Janeiro, não foi apenas um episódio de abandono administrativo. Foi um atentado contra a memória do país.
PublicidadeVer documentos históricos sendo atirados pelas janelas, como lixo sem valor, revela um nível de descaso institucional incompatível com qualquer sociedade que pretenda preservar a própria história. Ali não estavam apenas papéis velhos acumulados em um prédio deteriorado e desativado desde 2009. Havia registros de vidas, mortes, investigações e possíveis evidências relacionadas à ditadura militar, um dos períodos mais sensíveis da história brasileira.
Entre os materiais retirados do local pelo Governo do Estado, após a repercussão do caso, estão registros de entrada e saída de corpos entre as décadas de 1960 e 1990, plantas do edifício e fotografias históricas de sua inauguração. Não se trata de um acervo burocrático sem importância. São documentos com valor histórico, jurídico e humano.
A cena chocou porque simboliza algo maior: o abandono da memória pública. Em um país que já perdeu parte importante de seus arquivos históricos em outras ocasiões, assistir a isso novamente deveria provocar indignação coletiva imediata.
Grande parte do que a humanidade conhece sobre civilizações antigas chegou até nós por fragmentos preservados. Papiros egípcios, tábuas de argila da Mesopotâmia, manuscritos medievais e inscrições em pedras permitiram reconstruir guerras, governos e a própria evolução humana. A história sempre dependeu da preservação de registros.
Por isso, é inadmissível que, em pleno século XXI, com tecnologias avançadas de preservação disponíveis, documentos históricos sejam tratados como lixo. O episódio do antigo IML representa a falência da consciência sobre o valor da memória pública.
Quando uma sociedade permite que documentos sejam descartados dessa forma, aceita a destruição da própria capacidade de lembrar, investigar e compreender o passado. Sem memória não existe democracia sólida, verdade histórica ou justiça.
O caso também expõe uma cultura recorrente de negligência com arquivos públicos no Brasil. Acervos seguem armazenados em locais inadequados, vulneráveis a umidade, incêndios, enchentes e degradação física. O resultado é previsível: perdas irreversíveis de patrimônio documental.
Descartar documentos históricos sem critérios técnicos pode configurar crime contra o patrimônio documental e contra a administração pública. Há leis que determinam a preservação de documentos permanentes justamente porque eles pertencem à sociedade e não aos governos que passam.
Hoje, a tecnologia já oferece soluções capazes de proteger informações por séculos contra desastres naturais, crimes e obsolescência. É nesse contexto que iniciativas como as da Piql ganham relevância. A empresa desenvolveu uma solução capaz de armazenar dados offline por centenas de anos sem necessidade de consumo contínuo de energia ou manutenção frequente.
Preservar documentos históricos não é nostalgia. É garantir que futuras gerações tenham acesso à verdade original dos fatos. É impedir que a história seja apagada pela negligência, pela deterioração ou pela conveniência política.
Jogar arquivos históricos pela janela é, simbolicamente, jogar a memória de um país no lixo. E nenhuma nação consegue construir um futuro sólido quando descarta o próprio passado de maneira tão negligente.
Mônica Trindade é empresária e representante da Piql no Brasil
Mônica Trindade é empresária e representante da Piql no Brasil
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