Publicado 31/05/2026 00:02
Olhei para ele e perguntei: "Você faria a gentileza de ficar de luto por mim?".
PublicidadeEle disse que não. Ele, vez em quando, diz um 'não' demasiadamente apressado. Desta vez, não foi assim, porque, sem muito tempo para o meu muito pensar, ele sussurrou: "A morte é dentro".
Completamos 50 anos de casamento há pouco menos de um mês. Eu estava postergando a ida a um médico que exigia exames mais minuciosos, depois de uma sequência de sangramentos. Eu decidi nada verificar até a festa. Não queria em mim lembranças grudadas de notícias desagradáveis. Não queria que a alegria ventasse menos no dia de celebrarmos o amor.
Celebramos o amor. E foi lindo. É lindo sempre, a poeira dos anos não nos ter empoeirado. Eu ainda aguardo o seu toque como nos primeiros dias. Gosto da sua mão no meu corpo. Do seu corpo ao lado do meu. Dos nossos corpos sendo um. Gosto do gosto da sua boca. Da sua chegada em casa. Gosto até das esquisitices que foram ficando, trazidas pelo tempo.
Saímos menos do que antigamente. Usamos a palavra 'não' com mais força do que antes. Acho bonito quando ele diz que é tão bom jantarmos apenas nós. E depois nos aninharmos para ver um filme ou jogar um jogo de cartas. Ou lermos. Cada um o seu livro e comentarmos juntos. E um ou outro se levantar para ferver a água que dissolve o chá.
Gostamos de receber amigos. E das verdades que nos trazem das suas vidas. Principalmente as cotidianas. As que não combinam com os arroubos dos exibicionismos. A verdade é que o tempo do bajular já não nos alimenta. É fato que há fases da vida em que precisamos estar onde não gostaríamos e calar quando o falar nos faria bem. Em que, de meia verdade em meia verdade, corremos o risco de mentiras inteiras.
Como é bom ser sem se preocupar em parecer ser um outro. É pitoresco observar a cultura da bajulação. É uma corrupção moral. Basta ver os que têm algum poder e depois o perdem. Quem fica? Ficamos nós.
Divago e volto ao tema do início. Tenho um tumor em mim. O médico disse que é preciso apenas acompanhar. Que pode estar há tempos. E que, talvez, eu não precise gastar o pensamento pensando. Difícil não pensar. Gosto da vida. E foi por isso que perguntei a ele do luto, se ele faria a gentileza. Perguntei sabendo ser ele gentil. Se não fosse, não estaria com ele. Não sou mulher de naturalizar grosserias.
Ele respondeu desacreditando que eu deixasse a alegria para permitir que nuvens nos desobrigassem o calor gostoso do viver um amor tão longevo. Tem razão. Posso morrer de qualquer coisa. Posso cair de uma árvore e ser da terra novamente. E posso mesmo porque, na idade em que estou, ainda subo em árvores. E pego mangas. Ele gosta de mangas ainda não maduras. Com sal. Cortadas com amor. Eu faço isso.
Ele cozinha para mim. E cozinha como se cozinhasse um banquete para convidados outros. Diz que nosso jantar é sempre um jantar único. Depois de 50 anos. Eu mesma em casa gosto de ficar arrumada. Acho o desleixo um erro.
"A morte é dentro", fiquei pensando no que ele disse. A vida não nos priva do som silencioso das pequenas mortes. Das despedidas. Das pessoas que não mais estão. Das lágrimas deslizando saudades. Mas não podemos morrer com elas.
Hoje o dia está um pouco frio e ele me prometeu fazer uma sopa de cebolas. Eu vou arrumar a mesa cuidadosamente. Merecemos nos alimentar com os olhos, também. Não há de ser nada esse pequeno tumor. E, se for, que seja no tempo de ser.
Hoje é dia de lembrar que a vida também é dentro.
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