Publicado 01/06/2026 00:00
Há um paradoxo silencioso no coração da administração pública. Os mecanismos de fiscalização se ampliaram, os sistemas de auditoria se sofisticaram e as estruturas de controle se fortaleceram. E, no entanto, quem vive a máquina pública reconhece um fenômeno que nem sempre aparece nas estatísticas: decisões estão sendo evitadas.
PublicidadeNão por falta de informação nem por ausência de regra. Mas por um medo que é preciso compreender — e reconhecer que não é irracional. Pois o sistema não pune apenas o erro. Ele pune a decisão.
Ao longo das últimas décadas, o ambiente institucional foi sendo moldado e decidir passou a representar um risco pessoal elevado. Quem assina, quem autoriza, quem inova, assume exposição. E essa exposição nem sempre vem acompanhada de proteção equivalente.
O resultado é previsível: quem pode evitar decidir, evita. Não se trata de má-fé ou descompromisso. Trata-se de adaptação. O servidor aprende — pela experiência própria ou alheia — que agir pode gerar consequências, enquanto a omissão raramente é questionada com a mesma intensidade. Nesse contexto, a cautela extrema deixa de ser exceção e passa a ser regra. E comportamentos consistentemente recompensados acabam se consolidando como cultura.
Esse processo não é misterioso. O aumento dos mecanismos de controle ampliou a responsabilização individual sem ampliar, na mesma proporção, o suporte institucional a quem decide. A responsabilidade tornou-se difusa o suficiente para alcançar muitos, mas concreta o suficiente para recair sobre quem assinou. O parecer passou a funcionar como escudo antes de ser orientação. O pedido de complementação, como estratégia de adiamento. A reunião, muitas vezes, como forma de diluir responsabilidade.
Não se trata de um desvio. É o sistema respondendo aos incentivos que recebeu ao longo do tempo.
As consequências são visíveis. Processos que se arrastam sem definição, decisões simples que se tornam complexas, soluções que chegam tarde demais. O cidadão não vê o medo por trás desse comportamento. Ele vê apenas o resultado: um Estado lento, que hesita e demora a responder.
As consequências são visíveis. Processos que se arrastam sem definição, decisões simples que se tornam complexas, soluções que chegam tarde demais. O cidadão não vê o medo por trás desse comportamento. Ele vê apenas o resultado: um Estado lento, que hesita e demora a responder.
Há também um custo que raramente aparece nos relatórios. Decisão tardia é decisão mais cara — problemas que poderiam ser resolvidos crescem enquanto aguardam despacho, e a omissão acumula o que a ação teria evitado. Esse cálculo não está em nenhuma estatística. Mas está na qualidade do serviço que não chegou, na solução que veio tarde e na confiança que, aos poucos, deixou de existir.
É importante ser preciso: este não é um argumento contra o controle, nem uma defesa do erro. Mecanismos de responsabilização são essenciais e devem ser preservados. O problema está no desequilíbrio. Quando o sistema pune de forma desproporcional quem decide e tolera quem não decide, ele não elimina o risco — ele paralisa a ação.
Um Estado que não decide pode até evitar erros visíveis. Mas também deixa de resolver problemas reais.
Proteger a boa decisão é tão importante quanto punir o erro. O maior risco para a sociedade não é o servidor que errou ao decidir. É o Estado que aprendeu a não decidir.
Proteger a boa decisão é tão importante quanto punir o erro. O maior risco para a sociedade não é o servidor que errou ao decidir. É o Estado que aprendeu a não decidir.
Eduardo Furtado é servidor público da área fiscal do município do Rio de Janeiro
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