Thiago FeitosaDivulgação
Publicado 05/06/2026 07:00
O barulho metálico das linotipos, o cheiro da tinta fresca e o corre-corre de repórteres carregando folhas rabiscadas à mão parecem cenas de um tempo distante. Mas foi nesse ambiente que começou a ser escrita uma parte importante da história da imprensa brasileira.
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Há 75 anos, o Jornal O DIA chegava às ruas do Rio de Janeiro ainda de madrugada. No velho casarão da Avenida Marechal Floriano, no Centro da cidade, as reportagens muitas vezes saiam da redação escritas à mão para serem transformadas em pesadas placas de chumbo. Era outro Brasil, outro Rio e outro jornal. Desde então, quase tudo mudou.
Capa do jornal O DIA de 14 de outubro de 1983 - Reprodução
Capa do jornal O DIA de 14 de outubro de 1983Reprodução
O preto e branco deu lugar às telas coloridas dos celulares. As máquinas de escrever viraram peças de museu. A internet encurtou distâncias e transformou hábitos. A velocidade da informação passou a ser medida em segundos. Ainda assim, uma característica atravessou gerações sem perder força: o compromisso de estar ao lado do leitor.
Fundado em 1951 pelo ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, O DIA nasceu com uma proposta popular. Era conhecido por chegar antes dos concorrentes às bancas e por apostar em manchetes que ocupavam boa parte da capa.
Crimes, acidentes e escândalos dominavam o noticiário. Em um registro histórico, o jornalista Luiz Antonio Villas-Bôas Corrêa, primeiro funcionário do jornal, resumiu aquela fase com uma definição que se tornaria célebre: “a fórmula se resumia a três palavras: cadáver, macumba e sexo”.
A estratégia até que funcionava. Mas, décadas depois, o jornal começaria a trilhar outro caminho.
A mudança ganhou força em 14 de outubro de 1983, quando O DIA foi adquirido pelo saudoso jornalista Ary de Carvalho de Chagas Freitas. O negócio foi fechado rapidamente. Segundo relato da época, Ary resumiu a negociação em uma frase simples: “Quando as partes concordam, as coisas resolvem rapidamente.”
Na manhã seguinte, já instalado na nova função, ele decidiu manter a decoração da sala utilizada pelo antigo proprietário. O que não conseguiu aceitar foi a manchete estampada na edição daquele dia: “Chacina no banheiro, Assaltado e Esquartejado”.
Ali começava uma das maiores transformações da história do jornal.
“Eu não acreditava que tantos cariocas iam as bancas diariamente, interessados tão somente em crimes ou atraídos pela malícia de algumas manchetes”, analisou Ary de Carvalho à época.
A partir daquele momento, O DIA iniciou uma revolução editorial. A orientação era clara: produzir textos mais simples, objetivos e imparciais. Aos poucos, a mudança ultrapassou as páginas do jornal e alcançou toda a estrutura da empresa.
A modernização chegou à gráfica, aos departamentos administrativos e, principalmente, à redação.
Vieram os computadores.
Para uma geração acostumada ao som ritmado das máquinas de escrever, a novidade parecia uma ameaça. Como costuma acontecer em grandes mudanças, surgiram resistências. Em uma das salas onde haviam sido instalados equipamentos recém-chegados, incluindo uma paginadora Macintosh, apareceu um cartaz provocativo: “Mata e entocha”.
A brincadeira traduzia o receio de muitos profissionais diante da tecnologia.
Mas a desconfiança durou pouco.
Não demorou para que repórteres, editores e diagramadores percebessem que aquelas máquinas não estavam ali para substituir o jornalismo, mas para torná-lo mais eficiente. O computador deixou de ser visto como inimigo e passou a ser um aliado indispensável no cotidiano cada vez mais acelerado da redação.
A partir dali, o crescimento ganhou ritmo. O jornal ampliou sua circulação, fortaleceu sua presença no mercado e consolidou uma relação duradoura com os leitores.
Setenta e cinco anos depois, O DIA chega a um cenário completamente diferente daquele que encontrou em 1951.
O jornal impresso continua sendo parte de sua identidade, mas a marca expandiu fronteiras. Hoje, atua em um ambiente conectado, multiplataforma e em constante transformação.
O conteúdo produzido pela redação circula simultaneamente pelo portal, redes sociais, vídeos, newsletters, podcasts e novas plataformas digitais. A informação já não espera o leitor chegar à banca. É ela que encontra o público onde quer que ele esteja.
Essa capacidade de adaptação ajuda a explicar a longevidade da empresa em um setor que enfrentou profundas mudanças tecnológicas, econômicas e comportamentais ao longo das últimas décadas.
Mais do que acompanhar a história, O DIA aprendeu a evoluir junto com ela.
Em tempos de desinformação, excesso de conteúdo e disputa permanente pela atenção do público, a credibilidade tornou-se um ativo ainda mais valioso. E é justamente nesse patrimônio construído ao longo de gerações que o jornal sustenta seu futuro.
Os 75 anos de O DIA representa a trajetória marcada pela capacidade de inovar sem abandonar princípios fundamentais do jornalismo.
Ao olhar para trás, o caminho percorrido impressiona. Ao olhar para frente, o desafio continua o mesmo de sete décadas e meia atrás, interpretar os fatos com independência e manter viva a conexão com a sociedade.
Porque, no fim das contas, entre o chumbo das antigas oficinas gráficas e os algoritmos da era digital, o que permanece é a essência. A missão de contar as histórias do Rio de Janeiro e, de alguma forma, ajudar a escrever as próximas páginas de seu futuro.

Thiago Feitosa é presidente do Jornal O DIA
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