ANTÔNIO GERALDO DA SILVADIVULGAÇÃO
Publicado 15/06/2026 00:00
O silêncio nem sempre significa ausência de violência. Muitas vezes, ele é apenas a única forma possível de expressão de crianças e adolescentes que ainda não conseguem traduzir em palavras aquilo que viveram. Quando falamos sobre abuso sexual infantil, existe um grupo que permanece ainda mais vulnerável e frequentemente invisível: crianças com deficiência intelectual, transtornos do desenvolvimento, alterações importantes da linguagem ou limitações cognitivas.
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Para essas crianças, identificar, compreender e relatar uma situação de abuso pode ser extremamente difícil. Muitas não conseguem reconhecer limites corporais, interpretar intenções inadequadas ou organizar uma narrativa clara sobre o que aconteceu. Por isso, os sinais de sofrimento costumam surgir primeiro por meio do comportamento.
Mudanças bruscas de humor, crises mais frequentes, regressão no desenvolvimento, alterações no sono, medo repentino, isolamento, agressividade ou recusa de determinados ambientes podem ser manifestações importantes. O problema é que, muitas vezes, essas alterações acabam sendo atribuídas apenas ao diagnóstico já conhecido da criança.
E é justamente aí que mora um dos maiores riscos.
Quando tudo passa a ser interpretado exclusivamente como parte do transtorno, a escuta se enfraquece. O que poderia representar um sinal de violência ou sofrimento acaba reduzido a “mais uma crise”, “mais um comportamento esperado” ou “uma característica da condição clínica”. O diagnóstico deve orientar o cuidado, nunca limitar a investigação.
Crianças em maior vulnerabilidade frequentemente circulam entre escolas, clínicas, terapias e serviços especializados. Ainda assim, isso não garante proteção automática. Ambientes de cuidado também precisam estar preparados para reconhecer sinais de alerta, estabelecer protocolos de segurança e compreender que nem toda vítima conseguirá verbalizar a violência sofrida.
A proteção exige atenção técnica, escuta cuidadosa e responsabilidade coletiva. Famílias, profissionais da saúde, educadores e instituições precisam compreender que comunicação não acontece apenas pela fala. Muitas vezes, o corpo, o comportamento e o silêncio expressam aquilo que a criança ainda não consegue explicar.
Falar sobre esse tema durante o Maio Laranja é ampliar o olhar para infâncias que correm maior risco de permanecer invisíveis. Porque a incapacidade de relatar uma violência jamais pode ser confundida com ausência de violência.

Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria



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