Publicado 21/06/2026 00:02
 
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Não poucas vezes, ela dizia, "É com o coração, não com o fígado, que se decide".

Eu ficava escarafunchando e pensava comigo mesmo que precisamos dos dois. Não era médico nem era das biologias. Mas sentia que cada órgão tinha sua finalidade.

Ela era mais velha do que eu. Era professora de piano. Era linda. E falava como se depositasse as palavras no mundo com delicadeza difícil de descrever. Um dia fui dizer à minha mãe que não havia mulher como Eulália. Minha mãe achou graça e, na feira, contou. Enquanto as duas escolhiam batatas, minha mãe disse do filho e da paixão quase infantil.

Passei tempos evitando um encontro. Quando a encontrei, ela tratou de sorrir com ternura, como se eu fosse um menino desprovido de qualquer atributo que representasse qualquer possibilidade. Atingiu meu fígado. Tive raiva. E raiva da minha mãe, tão desastrada nos assuntos do coração. Não nos dela que era apaixonada pelo meu pai e que tinha dele os mais lindos sentimentos. Nos meus. Nos meus assuntos do coração.

Algumas pessoas da cidade diziam que Eulália já havia passado do tempo de casar. Eu discordava. O tempo, decidimos nós. Eu era atrevido na época com alguns assuntos. Eulália acordava o meu coração. Ainda sinto o cheiro do seu perfume nas memórias do amanhecer da minha vida.

Não foi com o Eulália que construí a minha história. As paixões mudam de endereço e as atenções se voltam para outros nomes. Nomeei os sentimentos a vida toda. E sempre me lembro da frase tantas vezes ditas por Eulália: "É com o coração, não com o fígado, que se decide".

Confesso que tive arroubos de vinganças, várias vezes, na vida. A vida é dos desencontros. É como é. Nomes que nos cruzam o caminho e alimentam nosso fígado de sujeiras. E, então, a raiva. E a ruminação. E o desajeito com os sentimentos. O tempo é arrumador dos desejos. E outros sentimentos ganham musculatura e poder de limpeza.

Hoje, muito mais velho do que a idade de Eulália, naqueles tempos, já não acumulo o fígado. Hoje respiro a liberdade da idade de outras aprendizagens.

Há que se ganhar sabedoria com o tempo. A vida dos outros é dos outros. Sim, pensava eu antes, desde que não passem na minha. Hoje penso diferente. Se passaram, passarão. O que fizeram, fizeram. O que eu fizer é que há de coincidir com o órgão que há de comandar.
Que seja o coração.

Os acúmulos de sentimentos menores diminuem a vida. E entorpecem o movimento dos dias. Se olharmos para trás querendo vingança, o dia não segue para frente. E a vida deixa de amanhecer.

Que seja o coração.

Nas mãos de Eulália, as músicas ganhavam vida. Eu ouvia e olhava. Os dedos de Eulália tinham o poder de silenciar qualquer pensamento desnecessário. E ela sorria. E, ao final. explicava o intento amoroso do compositor. Suas palavras saíam como uma dança. E eu dançava com ela no olhar.

Sim. Hoje sei que era uma paixão quase infantil. E que bom que ela sabia, também. Ela tocou no meu casamento. E eu brincava com minha mulher lembrando as confusões de dentro de mim naqueles dias. As confusões dos sentires não impedem os aprendizados.

Fui ao enterro de Eulália. Ela havia escolhido as músicas que deveriam ser ouvidas na sua despedida. Eu já não morava na cidade da minha infância, mas fui. Fui como se segurasse o tempo com as mãos, como se desautorizasse o seu escapulir entre os dedos da vida.

Minha mulher brincou comigo que ela não iria competir com Eulália. Que ela aceitava ter vindo depois. Brincou, naturalmente. Ninguém vem antes ou depois. Cada um é inteiro em seu tempo. E o tempo de Eulália era um tempo em que eu nem entendia as tessituras do amor. Eu entendia o sentir e o encantamento.

O encantamento é o que há de mais bonito na vida. Em qualquer tempo. É um nascer em dias diferentes. É um contemplar diferente cada dia. É um estacionar o dia para ouvir uma música e esquecer de tudo o que não seja a música. Ou um pôr do sol. Ou um banho de cachoeira. Ou um luar. Ou um cachorro acompanhando a caminhada em uma rua de paralelepípedo. Sempre gostei dessa palavra. E das pedras que um dia foram colocadas e que testemunharam tanto caminhar.

Sim, é o coração que nos faz lembrar e relembrar a vida. Estou ouvindo Bachianas número 5 de Villa-Lobos. Eulália fechava os olhos quando tocava essa música. E, vez em quando, chorava de emoção.

Eu sinto que ela sente, de onde não sei, o meu sentir quando sinto o que sentia com ela. Tão forte e tão puro. Se eu tivesse coragem, eu teria oferecido lenço para as lágrimas. Gosto das lágrimas. Que bom que aprendi a não impedir as emoções.

Ela sempre esteve certa, é com o coração que se decide a vida.

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