Publicado 29/06/2026 00:00
Nada mais belo do que a memória que ama — uma beleza que não está no tempo, mas é atemporal no sentido de dar existência ao que já não existe mais. Hoje acordei saudoso da minha avó, que já não está nesta temporalidade, mas continua cheia de vivacidade no meu existir. Lembrei-me dos seus olhos de amor diante de toda e qualquer situação da vida, como no desespero da minha mãe com os aluguéis atrasados ou com os cheques pré-datados no supermercado. A avó, sempre com alma nas palavras, deixava o ambiente esperançoso e, não sei até hoje como explicar, tudo acabava sendo resolvido, mesmo quando nada parecia ter saída. Tinha algo transcendental naquele espírito, uma incomum tranquilidade que iluminava a vida.
Da memória que ama, ainda ouço com nitidez suas palavras, desde o "bença, vó" até o seu dizer "Deus te abençoe e te guarde, meu filho". Isso vai além da espiritualidade; é um refrigério no coração em tempos de adversidade que me atravessa por inteiro. Os filósofos estoicos tinham em comum a busca por uma vida livre de chateações e perturbações alheias, convidando-nos a um esvaziamento de tudo o que sobrecarrega o espírito. Esse estoicismo aprendi desde a minha infância com a avó, o que hoje, para mim — filósofo profissional e estudioso das teorias do pensamento humano —, soa sempre como um déjà vu. Sua simplicidade era justamente a sua sofisticação. Mal dominava as palavras, pronunciando-as com um forte sotaque caipira, e quando, na brincadeira, nos atrevíamos a corrigi-la, ela declarava: “Me adescurpa aí, senhor sabichão”, e sorria com a singularidade de alguém que verdadeiramente sabia o que era viver.
Quanta saudade da vó! É na memória que ama que a encontro todos os dias. Não importa o que eu esteja fazendo ou vivenciando, ela está sempre presente. Como no dia em que fui palestrar para um grupo de executivos: por um pequeno atraso na programação do evento, fui convidado a aguardar na sala enquanto garçons elegantemente trajados serviam canapés e iguarias que só por oração e por revelação divina eu saberia do que se tratava. Com o meu paladar simples, acabei comendo algo que, só de tocar a boca, já não me caiu bem. Sem titubear, esquecendo o protocolo de etiqueta e quase de forma inconsciente, dei três beijinhos, fiz o sinal da cruz e lancei o pedaço mordido no lixo abençoado ao meu lado.
Percebi que uma senhora me observou com atenção, olhando-me como se já definisse um diagnóstico psiquiátrico. Logo após a minha palestra, ela me procurou dizendo: “Eu sei o que você fez, conheço esses gestos e me alegrei em ver”. E, ao mesmo tempo, falamos: “A vó ensinou: comeu e não gostou, e não tem para quem dar, pede perdão para Deus, faz o sinal da cruz, dá três beijinhos e joga fora”.
A memória que ama cria conexão de afetos; é sempre imperecível.
PublicidadeDa memória que ama, ainda ouço com nitidez suas palavras, desde o "bença, vó" até o seu dizer "Deus te abençoe e te guarde, meu filho". Isso vai além da espiritualidade; é um refrigério no coração em tempos de adversidade que me atravessa por inteiro. Os filósofos estoicos tinham em comum a busca por uma vida livre de chateações e perturbações alheias, convidando-nos a um esvaziamento de tudo o que sobrecarrega o espírito. Esse estoicismo aprendi desde a minha infância com a avó, o que hoje, para mim — filósofo profissional e estudioso das teorias do pensamento humano —, soa sempre como um déjà vu. Sua simplicidade era justamente a sua sofisticação. Mal dominava as palavras, pronunciando-as com um forte sotaque caipira, e quando, na brincadeira, nos atrevíamos a corrigi-la, ela declarava: “Me adescurpa aí, senhor sabichão”, e sorria com a singularidade de alguém que verdadeiramente sabia o que era viver.
Quanta saudade da vó! É na memória que ama que a encontro todos os dias. Não importa o que eu esteja fazendo ou vivenciando, ela está sempre presente. Como no dia em que fui palestrar para um grupo de executivos: por um pequeno atraso na programação do evento, fui convidado a aguardar na sala enquanto garçons elegantemente trajados serviam canapés e iguarias que só por oração e por revelação divina eu saberia do que se tratava. Com o meu paladar simples, acabei comendo algo que, só de tocar a boca, já não me caiu bem. Sem titubear, esquecendo o protocolo de etiqueta e quase de forma inconsciente, dei três beijinhos, fiz o sinal da cruz e lancei o pedaço mordido no lixo abençoado ao meu lado.
Percebi que uma senhora me observou com atenção, olhando-me como se já definisse um diagnóstico psiquiátrico. Logo após a minha palestra, ela me procurou dizendo: “Eu sei o que você fez, conheço esses gestos e me alegrei em ver”. E, ao mesmo tempo, falamos: “A vó ensinou: comeu e não gostou, e não tem para quem dar, pede perdão para Deus, faz o sinal da cruz, dá três beijinhos e joga fora”.
A memória que ama cria conexão de afetos; é sempre imperecível.
Fernando Moraes é Filósofo, Escritor e Palestrante, Doutor Honoris Causa pela Unifadra/Fundec SP. Já publicou diversos livros no Brasil, Portugal, Angola e Moçambique e é membro da União Brasileira de Escritores (UBE)
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