Maurício Batista, diretor-presidente da Regenera RioDivulgação
Publicado 03/07/2026 00:00
Uma mudança decisiva no manejo dos resíduos sólidos no Rio de Janeiro ocorreu há quinze anos. O que era descartado como lixo hoje é reconhecido pelo valor ambiental, energético e econômico. A mudança de paradigma ocorreu com o encerramento do Lixão de Jardim Gramacho, descaso ambiental e social que atravessou décadas. Desde então, a pauta assume um eixo estratégico de proteção ambiental, saúde pública e desenvolvimento sustentável.

Hoje, o Centro de Tratamento de Resíduos (CTR-Rio), em Seropédica, um dos principais aterros bioenergéticos do país, consolida um modelo alinhado às exigências ambientais, às demandas urbanas e à agenda de descarbonização. A planta recebe cerca de 10 mil toneladas de resíduos por dia e opera com tecnologia capaz de transformar passivos históricos em soluções concretas.

O impacto ambiental é direto. O aproveitamento do biogás gerado pela decomposição dos resíduos é um marco dessa transformação. O CTR-Rio concentra 8% da capacidade instalada no Brasil para captação de biogás, e o que seria lançado na atmosfera é convertido em biometano. O plano é expandir: até 2028, está previsto o investimento de R$ 105 milhões em aproveitamento energético do biogás, incluindo produção de biometano e geração de energia elétrica.

Esse cenário evidencia a importância do CTR-Rio. Com vida útil projetada para 2070, é atualmente, o único aterro com capacidade para atender a Região Metropolitana do Rio de Janeiro no longo prazo. Mas o potencial dos resíduos vai além da geração energética. A implantação de Unidades de Triagem, com o consequente aumento da reciclagem, da coleta seletiva e da inclusão socioprodutiva de cooperativas e catadores aponta para uma cadeia com capacidade crescente de geração de renda, empregos e desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, o desafio permanece em grande parte do país. Cerca de 40% dos resíduos sólidos urbanos brasileiros ainda recebem destinação inadequada, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da ABREMA. Lixões, aterros controlados e vazadouros não possuem as estruturas de proteção exigidas e podem provocar contaminação do solo e das águas subterrâneas, emissão descontrolada de gases de efeito estufa, riscos à saúde pública e diversos impactos ambientais.

Entretanto, nenhuma transformação acontece de forma isolada. Avançar na gestão de resíduos exige planejamento, investimentos, segurança regulatória e políticas públicas consistentes, além do fortalecimento da coleta seletiva, da cadeia da reciclagem e do engajamento da sociedade. A experiência do CTR-Rio demonstra que esse caminho é viável e posiciona o Rio de Janeiro entre as operações mais relevantes do Brasil e da América Latina em aproveitamento de resíduos.

Quinze anos após o encerramento de Gramacho, o legado é inequívoco: infraestrutura ambiental não representa custo, mas investimento com retorno social, urbano, energético e ambiental. Diante da urgência climática e dos desafios, essa é uma agenda que não admite retrocessos, nem atalhos.
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Por Maurício Batista, presidente da Regenera Rio
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