Manoel Valente Figueiredo NetoDivulgação
Publicado 01/07/2026 00:00
O contrário do endurecimento não é a fragilidade, mas a disponibilidade: a disposição de continuar em relação com aquilo que não controlamos, com o tempo, os outros, a perda, o desejo, a mudança. Permanecer disponível é aceitar que viver nos modifica. E que a força mais profunda da alma talvez seja continuar transformável.
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Quem já atravessou alguma profundidade sabe: certas dores não desaparecem; apenas aprendem outra linguagem. Tornam-se menos ásperas, menos centrais, menos famintas de explicação.
Há dores, porém, que mudam de substância. Tornam-se sangue. E o sangue é essa escritura antiga que nos percorre sem pedir licença.
Às vezes, me pergunto o que habita essa matéria inaugural dos nossos sangues vermelhos e latinos, essa força que adentra as veias e pulsa em corações ao mesmo tempo translúcidos e opacos. Como se fôssemos feitos de claridade e sombra, de barro e transparência, de impulso e contenção.
Soube da bile, às vezes negra. Soube da melancolia como quem conhece uma velha moradora da casa saturnina.
Ela carrega a gravidade dos que nasceram sob o peso do tempo, esse olhar lento que contempla o mundo como ruína e promessa. Talvez por isso se cerque de anéis luminosos em beleza, afeto, desejo para não se perder na solidão mineral das montanhas. Mas há momentos em que é preciso subi-las.
Subir as montanhas. Fazer delas amigas. Bailar em suas terras como um vulcão. Porque, nas alturas, a alma se despe das ferrugens do mundo e do peso das horas. Lá em cima, onde o vento parece mais antigo que os homens, o coração reaprende a respirar.
Subir é lembrar que a vida não foi feita apenas para suportar pesos, mas para tocar distâncias. A montanha não endurece; ela permanece.
E permanecer não é fechar-se. Até a pedra, em sua aparente rigidez, deixa-se atravessar pelo tempo, pela chuva, pelo musgo, pela erosão paciente do mundo. Há uma gentileza secreta nisso: durar sem defender-se de tudo.
A casa saturnina traz o crepúsculo e seus anéis. Mas em nós também há mar: esse animal azul que insiste em retornar, mesmo depois de quebrado em espuma.
Entre montanha e mar há um pacto secreto. Um ergue-se para tocar os deuses; o outro se estende para perdê-los. Ambos conhecem o movimento.
Talvez sejamos isso: geografias feridas. Continentes errantes buscando abrigo na mesma intempérie. A melancolia é a cartografia do que em nós ainda não encontrou repouso.
Há encontros que não pedem eternidade. Basta-lhes a verdade. Como a pedra. Como o mar. Como o silêncio dos vulcões.
E talvez gentileza seja isso: aceitar que a vida não nos pede permanência absoluta, mas presença inteira. Não endurecer diante do efêmero. Não fechar o peito diante da perda.
Continuar poroso, mesmo sabendo que o mundo as vezes pode ferir. Pois aquilo que nos fere também nos liberta. E só os livres permanecem vivos.

Manoel Valente Figueiredo Neto é jurista e jornalista
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