Nova imagem da coluna do Marcos EspínolaDivulgação
Publicado 10/07/2026 00:00
Durante décadas, o futebol foi o maior símbolo da autoestima do brasileiro. Com a Seleção em campo, o país parava. As diferenças ficavam de lado e a camisa amarela representava orgulho e talento. Hoje, porém, a realidade é diferente. A cada Copa do Mundo cresce a sensação de que o futebol brasileiro perdeu sua identidade. Mais do que uma crise técnica, talvez estejamos diante do reflexo de uma crise muito maior: a crise ética que se instalou no Brasil. Há corrupção institucionalizada nos três poderes da nação, legislativo, executivo e judiciário e isso repercute em toda a sociedade.

Não é exagero afirmar que o futebol costuma refletir a sociedade da qual faz parte. Um país marcado por escândalos de corrupção, disputas de poder e sucessivas denúncias contra agentes públicos dificilmente conseguiria manter imune sua principal paixão nacional. A degradação das instituições acaba encontrando eco também nos gramados e nos bastidores. Exemplos não faltam com diversos clubes falidos, com grupos que sugam sua saúde financeira e realizam negociações com SAFs que também não inspiram confiança, agravando os quadros desastrosos em que se encontram. Também não são poucas as denúncias de jogadores envolvidos em armações com apostas, numa enxurrada de Bets que nos acomete.

Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma sequência interminável de operações policiais, investigações e processos envolvendo políticos e empresários acusados de fraudes, desvios de recursos públicos e enriquecimento ilícito. No Rio de Janeiro, a situação tornou-se quase inacreditável. Em poucas décadas, praticamente todos os governadores eleitos acabaram presos, condenados ou denunciados por suspeitas de corrupção, expondo uma grave falência ética na condução do Estado.

A Confederação Brasileira de Futebol acumulou denúncias, disputas judiciais, afastamentos de dirigentes e sucessivas crises administrativas que comprometeram sua credibilidade. Em vez de servir exclusivamente ao desenvolvimento do esporte, muitas vezes a entidade se tornou personagem de disputas políticas e interesses particulares, distanciando-se do torcedor.

Não se trata de afirmar que o desempenho da Seleção seja consequência direta desses episódios. O futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mas seria ingenuidade ignorar que organizações fortes dependem de liderança, planejamento, transparência e credibilidade. Valores que fazem falta tanto na administração pública quanto em diversas instituições.

Talvez, a maior derrota do Brasil não esteja na eliminação de mais uma Copa, mas na normalização de comportamentos que colocam interesses pessoais acima do bem comum.
O país que um dia ficou conhecido como a pátria de chuteiras corre o risco de ganhar um apelido doloroso: o da pátria de tornozeleiras. Recuperar o respeito internacional exigirá muito mais do que revelar novos craques. Será necessário reconstruir valores, fortalecer instituições e compreender que ética, dentro ou fora de campo, nunca foi um detalhe. Sempre foi a base de qualquer grande vitória.
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Marcos Espínola é advogado criminalista e especialista em segurança pública
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