Fernando Moraes é escritor, filósofo e palestranteDivulgação
Publicado 16/07/2026 09:57 | Atualizado 16/07/2026 09:58
Vivemos sob a lógica da metrificação e do utilitarismo, onde até nossas relações são moldadas e medidas pelo networking e pelo ganho pessoal. Nesse cenário dominado pela conveniência, a amizade verdadeira deixou de ser um mero laço social e humano para se tornar um ato de resistência.
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Zygmunt Bauman já alertava sobre a modernidade líquida, repleta de conexões fáceis de estabelecer, mas igualmente fáceis de romper. Quando o outro é visto apenas como recurso ou degrau para alcançar status ou inflar o ego, quem não gera vantagens corre o risco de se tornar invisível, onde a existência passa por um processo cruel de anulação.
A amizade genuína caminha na contramão dessa engrenagem, é gratuita e desinteressada: Não confunde preço com valor. É um porto seguro onde o valor está na simples existência do outro. Se pauta pelo respeito, aceitando suas complexidades, singularidades e falhas, mas também ter a coragem de corrigir com afeto quando necessário, sem visar à posse ou à moldagem de acordo com conveniências.
Por isso a boa amizade cultiva e cuida da gratidão, não é um acerto de contas ou troca de favores, mas o reconhecimento do tempo doado e da escuta atenta. Amigos reais atravessam o tempo e sustentados por memórias afetivas que ignoram a distância física ou temporal. É um antidoto contra a solidão que não cai na armadilha da narrativa que estamos todos conectados através da tecnologia, essa ideia fixa de que é necessário ter milhares de curtidas e visualizações para apresentar algum grau de importância.
A amizade embora não deva ser buscada por interesse, ela gera os melhores dividendos para a nossa saúde mental. Ter alguém a quem recorrer de madrugada numa emergência, desarma o nosso sistema de alerta e combate a solidão crônica, uma das grandes pandemias do século XXI, muitas vezes camuflada por conexões virtuais e povoadas de ilusões.
Insistir em ter amigos em um mundo individualista é uma escolha política e existencial. A vida não é uma corrida de cem metros, mas uma maratona onde o cansaço é inevitável e o apoio mútuo é o que nos mantém de pé, firmes e fortes para continuar prosseguindo. Diante das adversidades e fragilidades que a vida nos acomete, quando todos os interesses passarem, o que restará de verdadeiramente valioso, serão os rostos daqueles que escolheram caminhar ao nosso lado simplesmente pelo prazer da nossa companhia e pelo que verdadeiramente somos.
* Fernando Moraes é escritor, filósofo, palestrante, doutor honoris causa e membro da União Brasileira de Escritores (UBE)
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