Publicado 11/08/2026 16:11 | Atualizado 11/08/2026 16:14
Se há algo que nunca nos abandona na existência é a sensação de absurdo, e que não surge apenas do vazio existencial, mas do descompasso entre o ritmo artificial do mundo e a natureza da consciência humana. O filósofo francês Henri Bergson dedicou sua obra a criticar a mecanização da vida e a redução da experiência a meros esquemas lógicos. Ao olharmos para a sociedade hiperconectada e algorítmica de hoje, o "absurdo" bergsoniano se revela na tentativa frustrada de enquadrar a existência em métricas, notificações e prazos contínuos.
PublicidadePara Bergson, o grande erro da modernidade é confundir o tempo do relógio com a verdadeira temporalidade, aquilo que ele chamou de duração (durée). O tempo mecânico é divisível, homogêneo e mensurável, já a duração, por sua vez, é fluida, indivisível e qualitativa. O absurdo da vida atual reside no fato de nos submetermos voluntariamente a uma engrenagem que fragmenta o nosso tempo em minutos produtivos, esvaziando o presente de seu significado real. Vivemos na ilusão de controlar o tempo, mas na verdade somos apenas consumidos por sua versão robotizada e lusória.
Para Bergson tudo que existe, existe para desaparecer, tudo que existe, existe em rumo ao desaparecimento, tudo que conhecemos, tudo que amamos, inclusive eu e você leitor, vamos também incontestavelmente desaparecer. Parece a princípio uma constatação óbvia, acinzentada e pessimista, mas Bergson nos trás um alento, nos questionando sobre o porque diante dessa verdade absoluta sobre o fim, não elevamos a nossa potência de vida (élan vital), essa energia que resiste como força transformadora, da qual podemos desfrutar nesta temporalidade, enquanto aqui estamos, chamada vida. Para Bergson a vida é um impulso criativo sem interrupção, capaz de superar limitações para se reinventar e ressignificar caminhos. Contudo, no mundo atual, essa força criativa frequentemente se vê sufocada por rotinas repetitivas e pelo consumo de estímulos imediatistas e efêmeros. O absurdo manifesta-se quando a capacidade humana de criar e sentir é reduzida a meras reações mecânicas diante de telas. Resgatar a potência de vida exige desacelerar, rompendo com a lógica da utilidade imediata para redescobrir a intuição e a espontaneidade que a existência é capaz de nos oferecer.
Dar potência a nossa temporalidade, faz com que a finitude ganhe novos olhares sob a ótica bergsoniana. Em uma era que tenta anestesiar a morte por meio do consumo e da busca por juventude eterna, reconhecer a limitação do tempo biológico torna-se um ato de lucidez e que portanto a finitude não deve ser vista como um fim trágico, mas como o limite que dá contorno e urgência à criação, como um horizonte distante que nos dá tempo de compreender que nossa existência é finita sim, mas que nos impele a viver a temporalidade em sua plenitude, transformando a angústia do absurdo em um convite para habitar o presente com intensidade e consciência, para que possamos mesmo em momentos onde o absurdismo nos consome, esperançar dias melhores.
Fernando Moraes é filósofo, escritor e palestrante. É doutor honoris causa pela Unifadra/Fundec- SP. Já publicou diversos livros no Brasil e no exterior. É membro da União Brasileira de Escritores (UBE).
Fernando Moraes é filósofo, escritor e palestrante. É doutor honoris causa pela Unifadra/Fundec- SP. Já publicou diversos livros no Brasil e no exterior. É membro da União Brasileira de Escritores (UBE).
Leia mais
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.