Publicado 23/08/2026 00:03
O dia chegou com algum vazio. Acordei e peguei as conduções que me conduzem ao trabalho. Vi a cidade acendendo as ruas e deixando a noite ir. Eu queria deixar ir. Eu queria que partisse.
PublicidadeCheguei e fiz o que sempre faço. Conversei com Cecília que mora onde trabalho e que já silenciou, há muito, os desejos. Eu ainda não. Ela partiu para a limpeza e eu para o ferro de passar. Gosto de passar roupas. Converso comigo mesma quando organizo, uma a uma, as peças que vestem gente.
Desvisto por pouco tempo o pensamento. Estou e não estou com Juliano. Cansei. Cansei de um homem não desejante. Cansei da ausência de palavras, de elogios, de iniciativas. Cansei das mãos que não tocam, do corpo que não procura.
No início, eu pensava que, pelo menos, ele não é violento. Cecília teve um homem violento e sofreu o tempo da demora no decidir. Só decidiu quando a filha também viveu a dor. O desviver aquela vida se deu no dia em que as lágrimas da menina apontavam o padrasto e o seu desejo desorganizado. Ela era menina demais. E ele homem de menos. E violento. E criminoso. Romper ciclos exige coragem.
Isso faz tempo. A filha hoje é enfermeira e vive um amor bonito, sem espancamentos. Juliano não é violento, é ausente. Há tempos não nos deitamos para o amar. Eu sei que ele tem outra. Muito mais jovem do que eu. Menos pesada. De história, também.
Ele é meu segundo marido. O primeiro, pai do meu filho, morreu antes do tempo. Enviuvei pouco. A lembrança dele doía e a noite me pedia alguém. Juliano foi chegando e vivendo o que podia. Eu conversava para dentro dizendo que não era certo comparações. O outro era fogo; esse é ar rarefeito.
Desde o início, eu dizia que acostumaria. E passava roupa. Gosto de passar roupa. E passo bem. Nada de vincos. As camisas do meu patrão são impecáveis. E seus elogios, também. Eles me retiram mais da solidão do que o homem que digo que é meu.
Cecília diz que, se eu não mandar embora, ele não vai. Trabalha pouco o Juliano. Trabalha muito o corpo. Desde que conheceu a outra. Quer parecer mais jovem. Deu de pintar o cabelo, também. Usa o meu dinheiro para ter roupas novas. Não acho que fica bem um homem de sessenta anos usando camisetinhas apertadas.
Chego do trabalho e o encontro com cheiro de perfume de mulher. Não digo nada. Digo ao meu ferro quando passo as calças.
Chego do trabalho e o encontro com cheiro de perfume de mulher. Não digo nada. Digo ao meu ferro quando passo as calças.
Expliquei à Cecília que as decisões são difíceis. A cama vazia é um peso pesado de se carregar. Pelo menos ouço uma respiração perto da minha. Digo e desdigo. Pareço tola. Quando sinto que talvez ele possa querer, por alguma conversa mais prometedora no jantar, me preparo. Perfumo a alma para ele. E fico esperando ele vir. Ele vem e não vem. Diz do sono. Beija minha testa e diz que amanhã será um dia duro. Só se for para a outra.
No aniversário do dia em que nos conhecemos, eu quase pedi que fizéssemos amor. Eu brinquei de fazermos o que fizemos naquela noite. Ele pareceu gostar. Fui para o banho. Coloquei uma roupa que comprei para que ele sentisse o que eu queria que ele sentisse. Uma camisola leve de pegar. Quando deitei, ele não pegou. Fingiu estar dormindo. Eu sei que ele estava acordado.
Acordei triste e agradeci o trabalho. E o ferro de passar. E as roupas que, se bem cuidadas, vestem bem. E ter para onde ir para não olhar quem não me olha.
Acordei triste e agradeci o trabalho. E o ferro de passar. E as roupas que, se bem cuidadas, vestem bem. E ter para onde ir para não olhar quem não me olha.
Se eu ficar sem ele, será que arrumarei alguém? Na minha idade não é fácil. Tento demitir o pensamento humilhante que diz que, às vezes, durante a noite, ele encosta as pernas dele nas minhas.
O bom é passar roupa. É deixar tudo organizado. No armário do meu patrão, alinho as cores e os tipos de roupa. E ele gosta. Ele gosta muito de mim. E eu gosto do seu abraço e das suas palavras de gratidão. Diz que não vive sem mim e que não vive sem Cecília. É dócil. É viúvo o meu patrão. Parece não querer mais ninguém. Não no tema da cama. Das pernas que se encontram vez em quando.
Há coisas que a gente só diz ao companheiro ferro que nunca nos decepciona. Um dia, decido.
Leia mais
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.