Publicado 24/08/2026 17:28
Assistir ao reaparecimento de doenças infecciosas até então controladas em pleno século 21 é um alerta desanimador para a medicina. Durante décadas, a ciência e a pesquisa avançaram e evoluíram trazendo soluções seguras e consolidadas, como as campanhas de imunização, que nos permitiram controlar ameaças históricas e proteger populações inteiras. No entanto, o crescimento da desconfiança e a rápida disseminação de desinformação sobre saúde estão criando brechas perigosas na nossa proteção coletiva.
A exemplo disso, temos a evidente fragilização da cobertura vacinal contra o sarampo. Nos Estados Unidos, foram registrados mais de 2.400 casos neste ano, e o crescimento não para, reflexo direto da falta de imunização. Um estudo da Universidade do Arkansas afirmou que a desconfiança nas vacinas cresceu 15% desde 2019, e a pesquisa do instituto Pew Research Center, de 2025, indicou que um em cada cinco pais estadunidenses questiona testes ou a segurança do calendário infantil. Esse é o pior surto dos últimos 35 anos do país.
Mas isso não está restrito ao solo norte-americano. A “infecção da desinformação” e do sarampo se alastrou e veio parar aqui no Brasil. Já estamos com 23 casos confirmados em menos de uma semana, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, e com um agravante: a cadeia de transmissão ativa está concentrada, principalmente, em bebês e adultos jovens não vacinados ou com esquema incompleto. O sarampo é um dos vírus mais contagiosos conhecidos e seu retorno demonstra como a queda na cobertura vacinal pode reabrir portas que considerávamos fechadas.
A geração de pais nascidos entre as décadas de 1970 e 1990 está protegida, pois teve o calendário vacinal cumprido por seus antecedentes. Mas, hoje, quem paga a conta são as crianças e os bebês que não têm direito de escolha e sofrem a pior consequência de todas: a de adoecer por negação à ciência e ter o seu direto à saúde retirado por livre escolha de seus responsáveis.
Na sequência da vulnerabilidade da saúde global, testemunhamos o avanço do ebola na República Democrática do Congo, que já assiste ao pior surto de sua história. Segundo o relatório mais recente do instituto de saúde pública do país, já são 4.063 casos e 1.850 mortes.
Nesse contexto, a desconfiança nas equipes médicas, o medo e os boatos infundados dificultam o rastreamento de contatos, o diagnóstico precoce e o isolamento dos doentes, permitindo que o vírus se expanda em ritmo acelerado.
Outras enfermidades também expõem a urgência de uma comunicação transparente. Um grande surto de difteria – infecção bacteriana grave que causa obstrução respiratória e complicações cardíacas – foi registrado na Austrália em maio deste ano, impulsionado por lacunas na vacinação e falhas no diálogo com comunidades locais.
Em paralelo, episódios recentes envolvendo o hantavírus, que ganhou notoriedade após a contaminação em massa em um navio, também em maio, reforçam como a ausência de informações claras e oficiais pode ser rapidamente explorada por especulações e tratamentos sem comprovação científica nas redes sociais.
Diante desse panorama, como infectologista afirmo que o vírus mais letal é o da desinformação, que está causando uma verdadeira erosão na saúde pública mundial. Anos de pesquisa científica estão postos em xeque por teorias infundadas e crenças limitantes que descredibilizam os avanços comprovados da medicina e expõem a população a novos e antigos perigos.
A vacinação continua sendo a principal e mais eficaz estratégia de prevenção para doenças como o sarampo e a difteria. E ela não é apenas uma escolha individual, mas um pacto social: quando a maioria da população se vacina, protegemos também os mais vulneráveis, como recém-nascidos e imunodeprimidos, que não podem receber certas doses.
Quem atua para minar a confiança na ciência assume uma responsabilidade direta pelos riscos que a sociedade enfrenta. Enfraquecer a confiança na ciência não pode ser considerado liberdade de expressão, pois coloca o futuro de todos em risco.
Para conter o avanço dessas e de outras infecções, combater a desinformação é tão vital quanto garantir o abastecimento de vacinas e medicamentos. A desinformação adoece, adia diagnósticos e custa vidas.
Apenas com transparência e com o fortalecimento do diálogo entre profissionais de saúde e a sociedade seremos capazes de reconstruir a confiança na ciência e evitar que doenças preveníveis continuem a ameaçar a saúde pública global.
PublicidadeA exemplo disso, temos a evidente fragilização da cobertura vacinal contra o sarampo. Nos Estados Unidos, foram registrados mais de 2.400 casos neste ano, e o crescimento não para, reflexo direto da falta de imunização. Um estudo da Universidade do Arkansas afirmou que a desconfiança nas vacinas cresceu 15% desde 2019, e a pesquisa do instituto Pew Research Center, de 2025, indicou que um em cada cinco pais estadunidenses questiona testes ou a segurança do calendário infantil. Esse é o pior surto dos últimos 35 anos do país.
Mas isso não está restrito ao solo norte-americano. A “infecção da desinformação” e do sarampo se alastrou e veio parar aqui no Brasil. Já estamos com 23 casos confirmados em menos de uma semana, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, e com um agravante: a cadeia de transmissão ativa está concentrada, principalmente, em bebês e adultos jovens não vacinados ou com esquema incompleto. O sarampo é um dos vírus mais contagiosos conhecidos e seu retorno demonstra como a queda na cobertura vacinal pode reabrir portas que considerávamos fechadas.
A geração de pais nascidos entre as décadas de 1970 e 1990 está protegida, pois teve o calendário vacinal cumprido por seus antecedentes. Mas, hoje, quem paga a conta são as crianças e os bebês que não têm direito de escolha e sofrem a pior consequência de todas: a de adoecer por negação à ciência e ter o seu direto à saúde retirado por livre escolha de seus responsáveis.
Na sequência da vulnerabilidade da saúde global, testemunhamos o avanço do ebola na República Democrática do Congo, que já assiste ao pior surto de sua história. Segundo o relatório mais recente do instituto de saúde pública do país, já são 4.063 casos e 1.850 mortes.
Nesse contexto, a desconfiança nas equipes médicas, o medo e os boatos infundados dificultam o rastreamento de contatos, o diagnóstico precoce e o isolamento dos doentes, permitindo que o vírus se expanda em ritmo acelerado.
Outras enfermidades também expõem a urgência de uma comunicação transparente. Um grande surto de difteria – infecção bacteriana grave que causa obstrução respiratória e complicações cardíacas – foi registrado na Austrália em maio deste ano, impulsionado por lacunas na vacinação e falhas no diálogo com comunidades locais.
Em paralelo, episódios recentes envolvendo o hantavírus, que ganhou notoriedade após a contaminação em massa em um navio, também em maio, reforçam como a ausência de informações claras e oficiais pode ser rapidamente explorada por especulações e tratamentos sem comprovação científica nas redes sociais.
Diante desse panorama, como infectologista afirmo que o vírus mais letal é o da desinformação, que está causando uma verdadeira erosão na saúde pública mundial. Anos de pesquisa científica estão postos em xeque por teorias infundadas e crenças limitantes que descredibilizam os avanços comprovados da medicina e expõem a população a novos e antigos perigos.
A vacinação continua sendo a principal e mais eficaz estratégia de prevenção para doenças como o sarampo e a difteria. E ela não é apenas uma escolha individual, mas um pacto social: quando a maioria da população se vacina, protegemos também os mais vulneráveis, como recém-nascidos e imunodeprimidos, que não podem receber certas doses.
Quem atua para minar a confiança na ciência assume uma responsabilidade direta pelos riscos que a sociedade enfrenta. Enfraquecer a confiança na ciência não pode ser considerado liberdade de expressão, pois coloca o futuro de todos em risco.
Para conter o avanço dessas e de outras infecções, combater a desinformação é tão vital quanto garantir o abastecimento de vacinas e medicamentos. A desinformação adoece, adia diagnósticos e custa vidas.
Apenas com transparência e com o fortalecimento do diálogo entre profissionais de saúde e a sociedade seremos capazes de reconstruir a confiança na ciência e evitar que doenças preveníveis continuem a ameaçar a saúde pública global.
Por Dr. Alberto Chebabo, infectologista dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, da Dasa, e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)
Leia mais
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.