Helcio Herbert NetoDivulgação
Publicado 15/10/2026 08:00
Em 2024, a Assembleia Legislativa do Rio aprovou o texto que instituiu o Dia Estadual do Futebol – a partir de então a data passou a ser comemorada anualmente no mês de outubro com o propósito de valorizar a função social que a modalidade desempenha. Na contramão dos inúmeros títulos, condecorações e atos parlamentares puramente burocráticos, a decisão tinha o potencial de cultivar as paixões em torno dos times cariocas. A medida, entretanto, resultou em mera apatia.
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O projeto foi publicado no intervalo em que a Casa se mostra apartada da população, com sucessivos afastamentos de presidentes e infiltrações do crime organizado. O distanciamento, contudo, não se deveu somente às decisões tomadas nos gabinetes: o próprio futebol tem caminhado no sentido oposto ao das multidões que fizeram do esporte o mais cativante no Brasil. A cobrança de ingressos com valores exorbitantes, a retórica financista de dirigentes e até as transmissões em plataformas digitais excludentes confirmam isso.
Os elementos que integram os principais times do Rio de Janeiro não se restringem às sedes sociais ou às listas de troféus. Integram simbolicamente o que entendemos como Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo a capacidade de comover milhões de pessoas, os movimentos históricos que atraíram identificações ou oposições nas cidades e as relações estabelecidas com os rumos do estado e do país. Em outras palavras: os torcedores são um fator decisivo para compreender a centralidade do futebol na sociedade.
A memória preservada em São Januário reforça o protagonismo dos cruzmaltinos com a Resposta Histórica, os Camisas Negras e a relutância em não naturalizar a proibição da presença preta no futebol. A defesa do profissionalismo no esporte por parte do Vasco é reconhecida como um enfrentamento frontal ao racismo e à exclusão dos grandes contingentes de ex-escravizados e de seus herdeiros na primeira metade do século XX – poucas décadas, portanto, após a mais tardia abolição nas Américas.
A mitologia Alvinegra consagra os anos 1950 como marco da participação popular no futebol e João Saldanha como símbolo maior disso: na mesma década, o jornalista e técnico ajudou a organizar movimentos populares de trabalhadores na busca por direitos e treinou Garrincha, Nilton Santos e Didi em campanhas que projetaram não apenas o Botafogo para o cenário internacional, mas também o próprio futebol brasileiro. Não é um equívoco imaginar que essa coincidência de datas tenha trazido efeitos e carregado disputas políticas para as arquibancadas.
A reboque do surgimento das torcidas jovens na virada para a década de 1970 – período sombrio da ditadura-civil militar (1964-1985) –, novos agrupamentos de tricolores se movimentaram para a recepção de Chico Buarque no Aeroporto do Galeão. A instrução era certeira: encher ao máximo o saguão do terminal para converter o retorno do músico ao Brasil em um ato público e impedir que um dos principais contestadores da violência de Estado sumisse nos calabouços da repressão. Os objetivos, afinal, foram bem-sucedidos.

Na tensa transição para a democracia, foram os rubro-negros que se mobilizaram para evitar que a perseguição aos opositores do regime continuasse. A Flanistia é um movimento determinante para notar que a garantia dos direitos civis não é resultado somente de gestos do Judiciário, do Legislativo ou do Executivo. O posicionamento de gente comum demonstra a insubordinação perante desmandos autoritários e influencia a direção dos governos. No limite, é uma atitude que tem colaborado para preservar até as garantias básicas no Brasil.
Toda essa vocação social se opõe ao marasmo de clubes e de seus principais representantes. E também ao silenciamento das torcidas – a ambiguidade é gritante porque a modalidade tem se tornado menos popular em um ciclo vitorioso: há quatro anos a taça da Libertadores da América, maior conquista do continente, fica na cidade.
A sucessão de títulos de Fluminense (2023), Botafogo (2024) e Flamengo (bicampeão em 2022 e 2025) não retomou as lutas democráticas. Resta às multidões apaixonadas pelo esporte reivindicar esse legado em momento de crescente violência política.
Helcio Herbert Neto é doutor em História Comparada pela UFRJ e professor substituto da UFRRJ. Atualmente desenvolve pesquisas sobre esporte e sociedade na UERJ no âmbito do Programa de Pós-Doutorado Nota 10 (Faperj)
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